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Caríssimos Amigos

Newsletter da  WCCM, Vol. 35, No. 2, Julho 2011, pg 4-5.

Podemos deixar para trás nossas preocupações e ansiedades, tal como Jesus nos aconselha em seus ensinamentos sobre a prece. Essas ansiedades são múltiplas, as falhas diárias que passam com uma boa noite de sono, as perdas que ainda estão horrivelmente presentes quando acordamos, os padrões mais profundos de nossa personalidade com suas raízes lançadas na memória pré-consciente. A sabedoria e o perdão começam a trabalhar, tão logo recuamos para parar de culpar o mundo, ou nossos pais, ou inimigos, e nos damos conta de que somos nós o problema. Dar o primeiro passo, em um caminho espiritual maduro, pode levar anos. No entanto, uma vez que o fazemos, somos capazes de discernir os diferentes níveis de sofrimento e insatisfação, que precisamos trabalhar, aqueles que não conseguimos resolver sozinhos, aqueles para os quais precisamos procurar ajuda, e aqueles que simplesmente precisamos transcender.

A meditação acelera e torna mais agudo esse discernimento. Em todas as tradições vemos a prece profunda, silente e não conceitual, ocupar o núcleo da fé, e abrir a porta da união com Deus. O sufis falam de “dhikr”, ou a evocação de Deus, a que chegamos através da repetição do nome de Deus. Diz-se que, em sua simplicidade, contém todas as formas de prece “libertando-nos de toda confusão e desconforto”. O Corão nos lembra que “nenhum objeto merece ser cultuado, a não ser Deus” e, portanto, não há nenhum outro objetivo supremo, ou real existência. Ao compreendermos isso, também compreendemos porque não deveríamos “dar nenhum valor a qualquer coisa que tenhamos perdido. . . mas, jamais perdermos nosso tempo”. O mandamento de Jesus de amor (a Deus, ao próximo, e a si mesmo), e o caráter de urgência de seu ensinamento, se traduz de maneira semelhante na consciência plena com que prestamos atenção absoluta em Deus. Poderemos então, voluntariamente vender tudo o que temos, na pura alegria da descoberta do tesouro do Reino, enterrado em nosso coração.

No entanto, as preocupações da vida facilmente nos assoberbam. Elas podem nos tornar autocentrados, esquecidos, insensíveis, ignorantes e estúpidos. Esquecemos que Deus existe. Ignoramos as necessidades de nosso próximo. Perdemos a capacidade de nos maravilharmos. Caminhamos sonâmbulos em direção ao túmulo. A ascese (o trabalho espiritual) é a cura para a exaustão. Ela nos ensina a lidar com os problemas, e a viver em liberdade, apesar deles. Ela dissolve a dureza do coração, na medida em que nos tornamos mais sensíveis e responsivos, mais abertos à beleza do mundo, e às necessidades alheias, inclusive daqueles que com ganância se apoderam antes de pedir. A ascese, assim como nossa meditação duas vezes ao dia, transforma a energia bloqueada em nosso ego, bem como os padrões negativos de pensamento e de comportamento. Sabiamente, passamos a aceitar que, nessa vida de preocupações, jamais teremos tudo o que desejamos. Mas, então, desponta a libertação, na medida em que aceitamos que o verdadeiro problema não reside no fato de não possuirmos, mas sim no próprio desejo.

 



Texto original em inglês

 


An excerpt from Laurence Freeman OSB, “Dearest Friends,” Christian Meditation Newsletter, Vol 35, #2, July 2011, pp. 4-5.

We can let go of our worries and anxieties as Jesus advises us in his teaching on prayer. These anxieties are manifold, the daily glitches that pass with a good night’s sleep, the losses that are still awfully present when we awaken, the deeper patterns of our character with their roots in pre-conscious memory. Wisdom and forgiveness begin their work as soon as we step back from them and stop blaming the world or our parents or our enemies and realize that we are the problem. This first step on a mature spiritual path may take years. Once taken, however, we are able to discern the different levels of suffering and dissatisfaction we have to work through, those we can handle ourselves, those we have to seek help for and those we simply have to transcend.

Meditation sharpens and accelerates this discernment. In all traditions deep, silent, non-conceptual prayer is seen to occupy the heart of faith and to open the door to union with God. The Sufis speak of ‘dhikr’ or the remembrance of God which is arrived at through the repetition of the name of God. In its simplicity it is said to contain all forms of prayer and ‘frees us from all confusion and discomfort’. The Qu’ran reminds us that ‘no object is worthy of worship except God’ and therefore there is no other ultimate goal or real existence. Seeing this, we also see why we should ‘attach no value to anything you have lost… but never lose your time’. Jesus’ commandment of love – God, neighbor and self – and the urgency of his teaching tone similarly translate into the mindfulness with which we pay absolute attention to God. We can then willingly sell all we have in the sheer joy of finding the treasure of the Kingdom buried in our heart.

Nevertheless, the cares of life easily overwhelm us. They can make us self-fixated, forgetful, insensitive, ignorant and stupid. We forget that God exists. We ignore the needs of our neighbors. We lose the capacity for wonder. We sleepwalk to the grave. Ascesis – spiritual work – is the cure for the careworn. It teaches us to handle problems and to live in freedom despite them. It dissolves hardness of heart as we become more sensitive and responsive, more open to the beauty of the world and the needs of others including those who greedily grab before they ask. Ascesis – like our twice-daily meditation – transforms the energy blocked in our ego and negative patterns of thought and behavior. Wisely we come to accept that we will not - in this life of cares - ever have everything we want. But then liberation dawns as we accept that the real problem lies not in the not-having but in the wanting itself.

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.