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Sexta-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Claramente, o nível de atenção consciente na vida diária está caindo no mundo todo. Você faz um pedido em um restaurante ou entrega informação para alguém, de forma clara e sucinta e, em resposta, fazem uma pergunta sobre a mesma coisa, descaradamente sem ter ouvido ao que você disse alguns segundos antes. Algumas pessoas podem não ter atenção suficiente mesmo para perceber que o outro não estava prestando atenção. Isso é particularmente preocupante quando a conversa lembra aquela entre duas pessoas mentalmente perturbadas, que estão tão isoladas em seu próprio mundo imaginário que não conseguem ouvir ou ver nada além dele. Eles acabam falando para outros, não entre eles.

Essa desatenção crônica em nosso mundo expõe a loucura do excesso de atividade e estímulo mental. Sentimo-nos impulsionados a fazer várias coisas simultaneamente mesmo sendo óbvio que a multitarefa prejudica a qualidade final daquilo que estamos fazendo. Por trás dessa compulsão pode estar o desejo de escapar da realidade, evitando verdades difíceis. Ou, talvez, competitividade ansiosa e o medo de que outros, por fazerem mais do que nós, nos farão parecer inferiores ou perdedores. A primeira coisa a desaparecer então é a alegria do trabalho e a satisfação da criação. Nos tornamos meros fazedores, medindo quantidade e encobrindo falhas e desatenção com jargões e, claro, trabalho de qualidade ainda mais baixa.

Naturalmente, a quantidade de atividade que podemos realizar, sem perdermos a sanidade e a atenção, pode variar - de pessoa para pessoa e de acordo com fatores externos. Alguns têm mais sucesso numa vida ocupada. São Bento disse que a ociosidade é a inimiga da alma e ele foi o primeiro grande consultor de administração do tempo, agendando cada dia de modo a conseguir que as coisas fossem feitas de maneira equilibrada e agradável. Mas ele sabia que alguns são mais lentos, o que não quer dizer mais preguiçosos, do que outros e que a comunidade (um bom time) deve acomodar diversos tipos de personalidade.

Quando um monge está fazendo seu ofício de oração, há diversos textos que ele sabe de cor. Ele não precisa lê-los. Mas isso significa que ele pode facilmente divagar para a multitarefa. Enquanto repete o Benedictus de manhã, ele repentinamente percebe que perdeu o fio da meada porque começou a planejar o dia, ou resolver um problema ou mesmo pensar na próxima leitura quaresmal. Essa é a deixa para começar de novo, para voltar atrás e repetir o Benedictus desde o início. Talvez o valor espiritual do exercício está mais em fortalecer seu próprio poder de atenção do que dizer a Deus o que Deus já sabe.

Simone Weil aprendeu o mantra dessa forma. Ela se preparava para repetir o Pater Noster regularmente com atenção absoluta. Tão logo sua mente vagueava, ela retornava ao início. Essa é a base para o seu insight de que a essência da oração não é a intenção, mas a atenção.

A oração não é apenas um ato explicitamente religioso. Um garçom anotando um pedido em uma mesa, numa noite agitada, está transformando seu trabalho em oração se ele ouvir, compreender o pedido e entregar o prato correto para a pessoa correta. E a gorjeta que ele recebe reflete isso, se o cliente estiver atento o suficiente para notar.


 

Texto original em inglês

Friday Lent Week Five

Clearly, the level of conscious attention in daily life in the world is dropping. You give an order at a restaurant or deliver information to someone, clearly and concisely, and in their reply they ask a question about it, blatantly not having listened to what you said a few seconds before. Some people may not have enough attention even to notice that the other person wasn’t paying attention. That is particularly worrying as the ensuing conversation resembles that between two mentally disturbed people who are so isolated in their own imaginative worlds that they cannot listen to or see anything outside it. They end by speaking at others not to them.

This chronic inattention in our world exposes the lunacy of over-action and excessive mental stimulation. We feel compelled to do many things simultaneously even though it is obvious that multi-tasking damages the quality of the outcomes of what we are doing. Behind this compulsion may be the desire to escape from reality, avoiding difficult truths. Or, perhaps, anxious competitiveness and the fear that others, by doing more than us, will make us look second-rate or losers. The first thing that goes then is the joy of work and the satisfaction of creation. We become merely doers, measuring quantity and covering up our shortcomings and inattention with jargon and, of course, ever more low-quality work.

Naturally the amount of activity that we can do, without losing sanity and attention, will vary – from person to person and according to external factors. Some thrive best on a busy life. St Benedict said idleness is the enemy of the soul and was the first great consultant on time-management, scheduling each day in order to get things done in a balanced and enjoyable way. But he knew that some are slower, which does not mean duller, than others and that community (a good team) must accommodate many kinds of personality. 

When a monk is praying his office there are many texts that he knows by heart. He doesn’t need to read them from the page. But this means he can easily drift into multi-tasking. While repeating the Benedictus in the morning, he suddenly realizes he has lost the thread of the lines because he has started to plan the day or solve a problem or even think of the next Lenten reading. This is the cue to start again, to go back and repeat the Benedictus from the beginning. Perhaps the spiritual value of the exercise is more in strengthening his own power of attention than in telling God what God already knows.

Simone Weil learned the mantra in this way. She set herself to repeat the Pater Noster regularly with absolute attention. As soon as her mind drifted she would return to the beginning. This is the basis for her insight that the essence of prayer is not intention but attention. 

Prayer is not only an explicitly religious action. A waiter taking an order at a table on a busy night is turning his work into prayer if he listens, gets it right and delivers the right food to the right person. And the tip he gets may reflect this, provided the customer was attentive enough to notice it.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.