Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sábado da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Ter uma boa Quaresma pode significar sentir-se contente consigo mesmo apenas por não ter caído do vagão de suas observâncias quaresmais. Jesus alertou severamente contra esse erro farisaico. Pode também significar que nos sentimos mais leves e mais presentes simplesmente porque nossa atenção foi fortalecida e purificada. Como disse ontem, fazer alguma coisa costumeira (como ler textos que sabemos de cor) pode facilmente nos levar ao piloto automático e à falta de atenção. Porém há também uma alegria em ter essas pontes de familiaridade e amizade incorporadas conectando níveis diferentes em nossa existência diária.

Rosamond Richardson encontrou isso quando descobriu o que para ela se tornara uma expansão daquilo a que ela já estava bem familiarizada, o mundo natural de árvores e plantas para o mundo paralelo dos pássaros. Eles a fizeram ir mais devagar e lhe deram acesso a um novo caminho para estar atenta e presente. Em seu livro ela destaca Kierkegaard que fala dessa atenção no presente como uma descoberta da alegria. ‘Essa alegria é alcançada por estar presente no momento... Alegria é o presente do indicativo com ênfase total no presente.’

Rosamond diz ‘eu logo descobri que a atenção requerida para vigiar pássaros era uma forma de meditação: a quietude e a absorção que era requerida levou-me para fora de mim mesma.’ Quando prestamos atenção podemos ser estimulados a fazê-lo para descobrir algo novo. O mundo moderno, no entanto, é frequentemente enganado por novidades falsas. Novas embalagens e campanhas publicitárias dirigem o consumismo. Mas aprendemos alguma coisa quando diminuímos nosso consumismo. Assim procedendo, nós podemos estar reduzindo o crescimento econômico, mas estamos também preparando o caminho para uma distribuição mais justa de recursos.

Quando nos tornamos presentes e atentos descobrimos que mesmo o mais familiar não é realmente uma repetição mecânica. Na vida real não podemos copiar e colar. Não podemos duplicar imagens como fazemos enquanto editamos nossa galeria de fotos. Uma paisagem coberta de neve ou uma avalanche é composta de incontáveis números de flocos de neves individuais. Desde o tempo que a primeira neve caiu na terra, nunca houve dois flocos idênticos. O mesmo é verdade para as pessoas. E para os pássaros. E para tudo o mais.  

Depois que ela entrou em seu novo mundo dos pássaros, Rosamond descreve ter visto um bando de escrevedeira-amarela emergir de um matagal, subindo e descendo, ‘ganhando terreno de novo e de novo, dispersando-se a cada vez numa explosão dourada .’ Ela ainda não sabia o nome desse pássaro. Um ano mais tarde ela sabia do que esses pássaros maravilhosos eram chamados e pode reconhecer um canto de escrevedeira-amarela. Familiar e novo simultaneamente. Como todos os pássaros eles são atenciosos. Eles não batem uns nos outros quando executam essas apresentações celestiais. Eles são individuais e um com o outro. Aqueles que os observam aprendem com eles, sua atenção e sua adaptação um para com o outro em comunidade.

Meditar desenvolve presença atenta em todas as coisas. (Se você não meditar, tente andar ou observar pássaros). Não é apenas uma fonte de alegria, mas algo indispensável para sua sanidade. Pensadores da antiguidade chamavam a isso de Contemplação Natural. Merton achava que era o que faltava aos noviços modernos quando eles chegavam ao Mosteiro. Com certeza, isso está faltando nas últimas ordens executivas presidenciais dos Estados Unidos acerca do meio ambiente.


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Five

Having a good Lent might mean just feeling pleased with oneself for not having fallen off the wagon of one’s observances. Jesus sharply warned against this pharisaic error. It might also mean that we feel lighter and more present simply because our attention has been strengthened and purified. As I said yesterday, doing something habitual (like reading texts we know by heart) can easily lead to automatic pilot and inattention. But there is also a joy in having these embedded bridges of familiarity and friendship connecting different levels in our daily existence.

Rosamond Richardson found this when she discovered what became for her an expansion of what she was already very familiar with, the natural world of trees and plants, into the parallel world of birds. They slowed her down and gave her admission to a new way of being attentive and present. In her book she quotes Kierkegaard who speaks of this attention in the present as a discovery of joy. ‘This joy is achieved by being in the moment...Joy is the present tense with the whole emphasis upon the present.’ 

Rosamond says ‘I soon discovered that the attention required to watch birds was a form of meditation: the stillness and absorption it required took me out of myself.’ When we pay attention we may be stimulated to do so by discovering something new. The modern world however is often deceived by false novelty. New packaging and advertising campaigns drive consumerism. But we learn something as soon as we slow down our consumption. In doing so, we may be reducing economic growth but we are also preparing the way for a more just distribution of resources.

When we become present and attentive we discover that even the most familiar is not really a mechanical repetition. In real life we can’t copy and paste. We can’t duplicate images as we can while editing our photo gallery. A snow-covered landscape or avalanche is composed of a countless number of individual snowflakes. From the time that snow first fell on the earth, no two flakes have been identical. The same is true of people. And birds. And everything.

After she had entered her new bird world, Rosamond describes seeing a flock of yellowhammers emerge from a thicket, rising and falling, ‘gaining ground again and again, dispersing in a burst of gold each time.’  She had not yet learned the name of this bird. A year later she knew what these lovely birds were called and could recognise a yellowhammer’s song. Familiar and fresh simultaneously. Like all birds they are attentive. They don’t bump into each other when they perform these celestial performances. They are individual and one with each other. Those who watch them learn from them, their attentiveness and their adjustment to each other in community.

To meditate develops attentive presence in all things. (If you won’t meditate, try walking or watching birds). It is not only a source of joy but indispensable to our sanity. Earlier thinkers called it Natural Contemplation. Merton thought it was what modern novices lacked when they arrived at the monastery. It is certainly lacking in the latest US Presidential executive orders on the environment.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.