Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Domingo de Ramos

D. Laurence Freeman

Domingo de Ramos 2017

Entre os nossos mais profundos desejos e necessidades está a segurança. No início de nossa vida, a segurança física e emocional são essenciais para um crescimento saudável. Num bom lar, a criança tem espaço para testar e desafiar, tentando ultrapassar os limites impostos por pais amorosos. Estes limites são, ao mesmo tempo, a segurança previsível de que necessitamos e também, por consequência, as linhas que precisamos da coragem trazida pela segurança para cruzar. Com crescimento e segurança, assim como com políticas de imigração, o segredo é a medida certa de tensão criativa.

As crianças se sentem profundamente insultadas e magoadas pela injustiça e pela traição. Mas estas falhas humanas não abalam apenas as linhas de segurança do nosso mundo; elas despertam nossa consciência para enxergar o significado da justiça e da fidelidade, ver o mundo da virtude em vez de apenas os sistemas que defendemos para nos manter seguros dentro de nossos limites. Se, como adultos, estivermos preocupados apenas com a segurança de nossas fronteiras, não amadurecemos como seres humanos capazes da verdadeira liberdade, de enxergar a alegria de ser cidadão no mundo da virtude – bondade, gentileza, humanidade, compaixão. Neste mundo de graças não há fronteiras.

Hoje, em todas as reuniões cristãs ao redor do mundo, a história para a qual viemos nos preparando durante a Quaresma é contada novamente. Temos apenas um número limitado de oportunidades na vida para ouvir esta história, narrada desta forma: numa comunidade de fé e nos dias em que os símbolos sagrados estão particularmente luminosos. A cada ano, durante a Semana Santa e de acordo com nossa capacidade de estarmos presentes e atentos, ouvimos e interiorizamos a história dos últimos dias de vida de Jesus. Como ele – e nós – encara a grande insegurança da morte é o maior teste de virtude e maturidade espiritual. Ele mostra que isso pode ser feito; e, se ouvirmos o misterioso final da história, a explosão de luz e de vida da mais profunda escuridão da morte, vemos que se trata de uma história cujo final é, na verdade, um novo começo no qual o próprio medo tem de ser transcendido. É a história de todas as histórias.

Ela gira em torno da mais dolorosa e aterrorizante de todas as inseguranças, que não é a dor física, mas o sofrimento extremo da traição. Não há nada pior do que ser traído por alguém em quem havíamos depositado nossa confiança. A raiva e uma profunda tristeza trazem uma desilusão que não há o que console. Podemos também vislumbrar como nós decepcionamos os outros. A traição geralmente tem uma reciprocidade que somos obrigados a reconhecer alguma hora. Sempre há contextos. Mas há também traições em que somos a parte inocente. O sofrimento aí é agudo porque ameaça nosso senso de nós mesmos, do nosso eu. É por isso que o abuso é um crime terrível cometido contra as crianças, geralmente por aqueles que sofreram abuso, porque na profundeza da psique, o pecado é contagioso e requer uma cura profunda. Esta história é sobre a cura universal do carma.

Ao ouvir a história hoje – este ano, na versão de Mateus (Mateus, 26, 14-27 e 66), pensem também em Judas, tão próximo, até no próprio nome, de Jesus. Não sabemos porque ele o traiu, apenas que ele sentiu remorso depois. O personagem dele na história é o arquétipo do pior das relações humanas. Ainda assim, ele foi incluído no imenso perdão que, da Cruz, Jesus estendeu a toda a humanidade em todas as nossas culpas públicas e privadas. Foi uma força de misericórdia que dividiu o Templo em dois: tantas vezes os tempos são lugares que negam o perdão. Então, vamos trabalhar no perdão a Judas e então chegaremos ao ponto da história.

 

Quaresma 2017

Estas leituras diárias, escritas por Laurence Freeman, um monge beneditino e diretor da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, servem como ajuda para termos uma melhor Quaresma. Este é um tempo definido de preparação para a Páscoa, durante o qual uma atenção especial é dada para a oração, maior generosidade  com os outros e o auto-controle.

É um costume abrir mão de algo, ou restringir o uso de alguma coisa durante a Quaresma mas também fazer algo adicional que beneficiará a sua espiritualidade e o tornará mais simples.  A leitura destas reflexões proverá coragem para que se torne a meditação uma prática diária ou, se já é, que se aprofunde a prática, preparando-se para os momentos de meditação com mais cuidado. As meditações da manhã e da noite se tornam então os centros espirituais de seu dia. Esta é a tradição, um modo muito simples de meditação, que nós ensinamos: 

Sente-se com a coluna ereta em quietude. 

Feche seus olhos levemente. 

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta. 

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha". 

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente. 

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual. 

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra. 

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.

Meditar com outros, em um grupo semanal, ajuda bastante a desenvolver a prática em sua vida diária.

 


 

Texto original em inglês

PALM SUNDAY

One of our deepest needs and desires is for security. In early life, physical and emotional security are essential for healthy growth. In a good home the child has space to test and provoke, to push against the limits imposed by loving parents. These limits are both the predictable security we need but also, eventually, the lines we need the courage born of security to cross. As with all growth and health, and immigration policies, the secret is the right measure of creative tension.

Children are deeply affronted and hurt by injustice and betrayal. But these failures of the human do not only shake the secure lines of our world; they also raise our awareness to see the meaning of justice and fidelity, the world of virtue rather than merely the systems we defend in order to keep us safe within our limits. If, as adults, we are only preoccupied by the security of our borders we have not matured as human beings capable of real freedom, of seeing the happiness of being citizens in the world of virtue – goodness, kindness, humanity, compassion. In this world of grace there are no borders.

Today, in Christian gatherings around the planet, the story we have been preparing for during Lent is told again. We only have a limited number of opportunities in life to hear this story, told in this way: in a community of faith and in days where the sacred symbols are particularly irradiating. Each year, during Holy Week and according to our capacity to pay attention and be present, we listen to and interiorise the story of the last days of the life of Jesus. How he – and we – face the great insecurity of death is the big test of virtue and spiritual maturity. He shows it can be done; and, if we listen to the mysterious end of the story, the bursting out of light and life from the deepest darkness of death, we see that this is a story whose end is, in fact, a new beginning in which fear itself has been transcended. It is the story of all stories.

It pivots on the most terrifying and painful of insecurities, which is not physical pain but the extreme suffering of betrayal. There is nothing worse than being let down by someone in whom we have placed trust. Anger and profound sadness ensue with a disillusionment that cannot be consoled. We may also glimpse how we too have let them or others down. Betrayal usually has a reciprocity that we are forced to recognise over time. There are always contexts. But there are also betrayals where we are the innocent party. The suffering here is acute because it threatens our very sense of self. This is why abuse is such a crime against children, usually committed by those who have been abused themselves, because in the depth of the psyche sin is contagious and requires deep healing. This story is about the universal healing of karma.

As you listen to the story today – this year it is Matthew’s account (Matthew 26:14-27:66) – spare a thought for Judas, so close, even in the spelling of his name, to Jesus. We don’t know why he betrayed him, only that he felt remorse afterwards. His character in the story is the archetype of the worst in human relations. Yet, he was included in the great forgiveness that from the Cross Jesus extended to  humanity in all our private and public guilts. It was a force of mercy that split the Temple in two: temples are so often places which deny forgiveness.  So, let’s work on forgiving Judas and we have then got the point of the story.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.