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Segunda-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

Segunda-feira da Semana Santa 2017

Eu estava no teatro recentemente e, na metade do primeiro ato (da peça), foi permitida a entrada  de um retardatário, o que causou consternação geral, e demos passagem, nos espremendo,  para ele chegar ao seu assento no meio da fila. Quando o espetáculo está em andamento, devemos tentar manter nossa atenção focada, devido ao fluxo ininterrupto de eventos que leva à plenitude da nossa resposta quando o clímax chega e a cortina cai... e sobe novamente.

O mesmo se aplica à Semana Santa. Se nos distraímos do ritmo acelerado da história, não desperdicemos  um momento reclamando, mas restauremos a atenção no foco.

Olhando para algumas pinturas da Última Ceia recentemente, observei as diferentes maneiras em que Judas está posicionado. No famoso mural de Leonardo, ele é o quinto do lado esquerdo, sentado, com um olhar muito criminoso, segurando uma  reveladora sacola de prata (Pedro segura a adaga com a qual,  mais tarde, cortará a orelha do servo). Em Ghirlandaio, Judas está sentado sozinho diante do resto do grupo. Em algumas imagens, Judas é estereotipado como o de mais forte aparência judaica entre todos. Geralmente, Judas é apontado como  figura pouco atraente e isolada, embora na narrativa ele tenha o momento de intimidade mais forte, até mesmo misteriosa com Jesus, que sabe o que ele vai fazer e, silenciosamente diz-lhe para seguir em frente. ("A noite tinha caído")

Rostos nos revelam e nos expõem. Reconhecemos com felicidade um rosto familiar na multidão do aeroporto, esperando na Desembarque. De repente, a multidão de estranhos se dissolve,  e um rosto sorridente e um aceno amigável dissipam o anonimato que é a pior parte da viagem.

Quando vemos uma foto de nós mesmos, pensamos, eu realmente pareço assim? Pelos nossos rostos, entendemos desconfortavelmente, as pessoas podem nos conhecer melhor, ou pelo menos diferentemente, de como nós mesmos nos conhecemos. Se diferente, quem está mais certo?

Em um instante, um rosto  com um olhar escuro e tenso  pode  transformar-se  em alegria radiante e infantil. Uma onda de emoção varre a alma, e os músculos do rosto involuntariamente refletem-no em momentos. Leva tempo para que possamos recuperar o controle sobre o que nossa expressão facial está dizendo ao mundo.

Mesmo quando nosso rosto está em repouso, e estamos entre sentimentos fortes de qualquer tipo, ele sempre mostra a todos, embora talvez menos para nós mesmos, a soma total de tudo o que fomos. Formado ao longo de décadas por inúmeras contrações musculares, carrancas franzidas, mandíbulas tensas, fases de raiva e tristeza, dor e tristeza - e coisas boas também - temos o rosto que merecemos. É tudo o que vivemos. Nenhuma quantidade de cosméticos ou cirurgia pode realmente esconder o caráter de nosso rosto. O envelhecimento é o mínimo com que temos de nos preocupar.

O rosto de Judas é o nosso pior medo sobre nós mesmos e, portanto, pode desencadear a mais profunda e mais transformadora compaixão. A verdadeira conversão acontece a partir de um lugar fora do controle da vontade, um lugar de graça redentora. Quando ocorre, somos rejuvenescidos e, mesmo que por um instante, nosso rosto original, nosso verdadeiro "eu" é visível para nós mesmos e para aqueles que ainda possam estar nos olhando com algum interesse depois de todos esses anos.

Na face de Judas, como ocorre com as pessoas menos obviamente complexas, o rosto de Jesus Cristo pode de repente brilhar, como um tesouro guardado em vasos de barro, pois, como Deus disse: "Que a luz brilhe nas trevas", fazendo brilhar a sua luz em nossos corações, para  dar-nos  a luz do conhecimento da glória de Deus, como exibida na face de Cristo. (2 Cor 4: 6)

 


 

Texto original em inglês

Monday Holy Week

I was at the theatre recently and half way into the first act a latecomer was allowed in. She caused general consternation as we made way for her to squeeze past everyone to get to her seat in the middle of the row. Once the show is underway, we should try to keep our attention focused because it is the uninterrupted flow of events that leads to the fullness of our response when the climax comes and the curtain falls.. and rise again. The same applies to Holy Week. If we get distracted from the quickening pace of the story, don’t waste a moment complaining but restore your attention to its focus.

Looking at a number of paintings of the Last Supper recently I noticed the different ways that Judas is positioned. In Leonardo’s famous mural, he is sitting, with a very criminal look fifth from the left, holding a revealing bag of silver (Peter is holding  dagger with which he will later cut off the servant’s ear). In Ghirlandaio’s, Judas is sitting alone facing the rest of the group. In some pictures Judas is stereotyped as the most Jewish looking of them all. Generally, Judas is singled out as an unattractive and isolated figure, although in the narrative he has the moment of strongest, even mysterious intimacy with Jesus who knows what he is going to do and who quietly tells him to get on with it. (‘Night had fallen’)

Faces reveal and expose us. We recognize with happiness a familiar face in the airport crowd of welcomers waiting at Arrivals. Suddenly the crowd of strangers dissolves as a smiling face and friendly wave dispel the anonymity which is the worst part of traveling. 

When we see a photo of ourselves we think, do I really look that like? From our faces, we understand uncomfortably, people may know us better, or at least differently, from how we know ourselves. If differently, who is more right? 

In an instant a face may morph from a tense and anxious dark look into a radiant and childlike joyfulness. A wave of emotion sweeps over the soul and the muscles of the face involuntarily mirror it within moments. It takes time before we can regain control over what our facial expression is telling the world.

Even when our face is in repose and we are in between strong feelings of any kind, it always shows to everyone, though maybe least of all to ourselves, the sum total of all we have been. Formed over decades through countless muscular contractions, through frowns, tensely held jaws, phases of anger and sadness, pain and grief – and good things too – we have the face we deserve. It is all we have lived through. No amount of cosmetics or surgery can really hide the character of our face. Aging is the least we have to worry about.

The face of Judas is our own worst fear about ourselves and it can therefore trigger the deepest, most transformative compassion. True conversion happens from a place far from the control of the will, a redemptive place of grace. When it happens we are rejuvenated and, if only for a moment, our original face, our truest self is visible to ourselves and to those who may still be looking at us with any interest after all those years.

In the face of Judas as of less obviously complex people, the face of Jesus Christ can suddenly flash forth, like a treasure held in earthen vessels :

For God, who said, "Let light shine out of darkness," made his light shine in our hearts to give us the light of the knowledge of God's glory displayed in the face of Christ. (2 Cor 4:6)

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.