Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Terça-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

Terça-feira da Semana Santa 2017

No Evangelho de hoje (Jo 13, 21-38), São João descreve a discussão de traição que aconteceu na Última Ceia. Nós precisamos recordar este lado escuro da história para que reconheçamos a luz que emerge ao final da história. É tão perturbador para nós quanto Iago, o personagem corrupto e traidor da peça Otelo de Shakespeare, para os espectadores da peça. Ao final da peça, depois de destruir o seu mestre, Iago é exposto e condenado mas se recusa a explicar os seus motivos. Ele apenas diz: "Não exijam nada de mim. O que vocês sabem, vocês sabem. / A partir deste momento, não falarei mais uma palavra." Se queremos significado, precisamos olhar além de meros motivos. A verdade deste mistério não é encontrada em explicações.

Na leitura de hoje de Isaías somos lembrados da identificação de Jesus com a figura profética antiga, na verdade figura arquetípica do servo sofredor e do curador ferido. Isaías diz:

... escutai vós, povos de longe:
O Senhor me chamou desde o ventre,
desde as entranhas de minha mãe fez menção do meu nome.

O segredo que estamos procurando é sempre sobre nossa origem. Quem sou eu? significa De onde venho? E, somente então, "Por que?" Mas da mesma forma como a resposta sobre a nossa origem está em um estado pré-linguístico, desde o ventre, também a questão do significado está no silêncio que vem depois da linguagem. 

Assim como a nossa, a história de Jesus entra no tempo com a sua concepção e nascimento, com o seu corpo que foi formado em um ventre e foi depois colocado no mundo. A mesma história, como a nossa, termina com seu último suspiro e enterro, quando ele foi colocado de volta no ventre da mãe terra. Em nenhuma tradição de fé o corpo é tão importante. É verdade que os Cristãos ocidentais moralistas muitas vezes deram ao corpo uma avaliação de crédito muito ruim. Estava cheio de tentações e vícios. Estas eram contrárias à ideia de santidade, a qual era tão distantemente removida da visão de inteireza que o estado angélico, imaterial parecia mais elevado.  

Existiam exceções como qualquer teologia da Incarnação tornava inevitável. O impulso puritano, gnóstico no Cristianismo nunca poderia totalmente denegrir o corpo. Jesus foi ressuscitado "no corpo". "Na minha carne eu verei a Deus". Anjos estavam mais perto de Deus, mas nós éramos mais semelhantes a Deus "porque tínhamos um corpo". Da mesma forma, em Jesus, também Deus. Nele, também, Deus chorou, se cansou e ficou impaciente, bebeu vinho e amou, foi traído e sofreu. 

Outras tradições de sabedoria levam o corpo mais seriamente como um instrumento de desenvolvimento espiritual. Yoga, Tai Chi, Tantra têm uma sabedoria prática, baseada no corpo, que a espiritualidade Cristã muitas vezes subvaloriza. Mas as tradições Asiáticas, apesar de também conceberem algum tipo de transformação, têm a tendência de ver o corpo físico como um pacote, um veículo, um agregado que dissolve de volta a seus elementos. O corpo de Jesus evolui no Corpo de Cristo. Ele evolui através de uma ressureição que revela o destino corpóreo de cada um de nós. Nós temos um corpo espiritual a ser encontrado. Mas, como Teilhard de Chardin disse, "espírito é matéria incandescente." Nós vamos brilhar e seremos incorporados para a eternidade.

Parece bom. Mas então, quem sabe com certeza, até que nós saibamos? Por enquanto nós refletimos sobre Jesus como uma pessoa material: como nós ancorado no mundo e no presente momento através de um corpo mutável que não funciona como uma máquina e que é sempre a nossa interface com a natureza mais profunda da realidade. 


 

Texto original em inglês

Tuesday Holy Week

In today’s gospel (Jn 13:21-38) St John describes the discussion of betrayal that took place at the Last Supper. We need to remember this dark side of the story if we are to recognize the light that dawns at the end of the story. It is as disturbing to us as Iago, the corrupter and traitor in Shakespeare’s Othello, is to watchers of the play. At the end of the play, after he has destroyed his master, Iago is exposed and condemned but refuses to explain his motives. He only says: ‘Demand me nothing. What you know, you know. / From this time forth I never will speak a word.’ If we want meaning we have to look deeper than mere motives. The truth of this mystery is not found in explanations.

In today’s reading from Isaiah we are reminded of the identification of Jesus with the ancient prophetic, indeed archetypal figure of the suffering servant and the wounded healer. Isaiah says: 

..pay attention, remotest peoples.
The Lord called me before I was born,
from my mother’s womb he pronounced my name.

The secret we are looking for is always about our origin. Who am I? means Where do I come from? And, only then, ‘why?’ But just as the answer to our origin lies in a pre-linguistic state, before I was born, so the question of meaning lies in the silence that follows after language. 

Like ours, the story of Jesus enters time with his conception and birth, with his body that was formed in a womb and was then pushed out into the world. The same story, like ours, ends with his last breath and burial, when he was pushed back into the womb of mother earth. In no faith tradition is the body more important. It is true that western Christian moralists often gave the body a junk bond credit rating. It was full of temptations and drives. These ran counter to an idea of holiness, which was itself so far removed from the vision of wholeness that the angelic, bodiless state seemed higher.

There were exceptions as any theology of the Incarnation made inevitable. The puritanical, gnostic impulse in Christianity could never wholly denigrate the body. Jesus was raised ‘in the body’. ‘In  my flesh I shall see God’. Angels were closer to God, but we were more like God ‘because we had a body’. And so, in Jesus, did God. In him, too, God wept, got tired and impatient, drank wine and loved, was betrayed and suffered.

Other wisdom traditions take the body more seriously as an instrument of spiritual development. Yoga, Tai Chi, Tantra have a practical, body-based wisdom that Christian spirituality has generally undervalued. But the Asian traditions, while also conceiving of some kind of transformation, tend to see the physical body as a packaging, a vehicle, an aggregate that dissolves back into its elements. The body of Jesus, evolves into the Body of Christ. It evolves through a resurrection that reveals the bodily destiny of each of us. We have a spiritual body to look forward to. But, as Teilhard de Chardin , says ‘spirit is matter incandescent.’ We will glow and we will be embodied for eternity.

Sounds good. But then, who knows for sure, until we know?  For now we reflect on Jesus as a bodily person: like us anchored in the world and the present moment through a changeable body that does not work like a machine and that is always our interface with the deepest nature of reality.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.