Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Terça-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Conduzindo um retiro na Itália no último fim de semana, aprendi duas coisas sobre minha percepção do mundo, eu que pensava que via com precisão.

A primeira aconteceu depois que falei sobre o propósito e o valor de “fazer algo na Quaresma”, tema que as leituras diárias das últimas semanas tem repetido regularmente. Como fazer - ou não fazer algo - pode ajudar a reorientar nossas mentes e corações, mudar padrões antigos e até mesmo, sem nos fazer violência, desencadear ou melhorar níveis mais profundos de transformação. 

Eu achava que uma proporção razoável das cerca de cem pessoas para quem eu falava teria feito, ou deixado de fazer, alguma coisa. Era uma suposição ingênua, pois, quando pedi que levantassem a mão aqueles que tinham assumido uma prática de Quaresma, eu esperava resposta de pelo menos cinquenta por cento, e apenas alguns o fizeram. Pode ser que eles me entendessem mal. Ou talvez estivessem seguindo a advertência de Jesus para não desfilar suas boas ações diante dos homens. Não sei. Também erramos ao notar nossas percepções errôneas.

Se eu estivesse certo, tivera uma percepção mental equivocada. Mais tarde, ganhei duas poderosas obras de arte digital feitas com cores fortes e dinamicamente abstratas. Olhando mais tempo, vi um rosto em uma delas. No outro, vi uma forma que me lembrou um extraterrestre, embora eu não tenha dito isso ao artista. Depois de um terceiro olhar, pareceu-me que o rosto que vi era muito familiar, e mencionei isso. O artista olhou para mim, surpreso por eu não me ter reconhecido. Quando olhei para a outra pintura, o alienígena fundiu-se em uma nova composição e reconheci também ali uma visão diferente do meu rosto.

Tomar consciência de nossas percepções errôneas da realidade é sempre humilhante, e pode ser também engraçado e divertido. Em assuntos mais sérios, onde nossa reputação ou privilégios são ameaçados pelo reconhecimento dos nossos erros, podemos fingir que sempre vimos as coisas corretamente e fomos mal interpretados no que dissemos antes - ou simplesmente negamos e fugimos do constrangimento. Como sabem os líderes eficientes, é sempre melhor admitir erros e, se necessário, pedir desculpas, mas, para isso, é preciso ter um desprendimento contemplativo de nós mesmos e de nossa imagem.

Um dos valores de uma disciplina ascética é a humildade, o sentido de “pés no chão” que ela nos dá. Nossa prática nunca é perfeita; mesmo que sejamos consistentes, alguma autocongratulação sempre pode infiltrar-se. Mas a humilde fidelidade ao que decidimos manter, no entanto, cria um desapego, uma distância ótima de nós mesmos e de nossa visão subjetiva do mundo. Ela permite que nossos poderes de percepção funcionem dentro do fluxo de eventos ao invés de criar um modelo de realidade que defendemos a todo custo, e mesmo depois de haver sido exposto como falso.

Este traço pessoal, a que todos podemos estar sujeitos sem o sabermos, também afeta a psique coletiva. Eleitorados que cometeram um grande erro, o qual é evidenciado por eventos subsequentes, raramente vêem isso e mudam de idéia. Mudarmos a nossa mente é a essência do desenvolvimento humano. Como cobras, criamos peles de percepção que temos que aprender a largar sem arrependimento quando chegar a hora; assim como, um dia, livramo-nos de nosso revestimento mortal e entramos nus no reino onde vemos com visão perfeita, pelo fato de já não objetivarmos a realidade.

Em vez de olhar para o mundo (e entender errado a maior parte do tempo), vemos com os olhos do artista que criou tanto a nós, quanto ao mundo a que estamos sempre unidos. Afinal, vemos porque vemos que somos vistos.

 


 

 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week Four

I have been leading a retreat in Italy and learnt two things last weekend, each concerning my perception of the world that I thought I was seeing accurately.

The first came after I spoke about the purpose and value of ‘doing something for Lent’, which these daily readings for the past few weeks have returned to regularly. How doing something and not doing something can help re-orientate our minds and hearts, shift old patterns and even, without doing violence to us, trigger or enhance deeper levels of transformation. I assumed that a fair proportion of the hundred or so people I was talking to would have done something or given something up. It was a naïve assumption because when I asked for a show of hands of people who had a Lenten practice, and expecting at least fifty percent, only a very few did so. Now maybe they misunderstood me. Or maybe they were applying the warning of Jesus not to parade your good deeds before men. I don’t know. We misperceive our misperceptions too.

If I was right I had made a mental misperception. Later I was given two powerful digital art works made with striking colours and dynamically abstract. As I looked at them longer I saw a face in one. In the other, I saw a shape that reminded me of an extra-terrestrial, though I didn’t say this to the artist. After a third look, it struck me that the face I saw was very familiar and I did mention this. The artist looked at me, surprised that I had not recognised myself. When I looked at the other painting the alien merged into a new composition and I saw a different view of my face there too.

To become aware of our misperceptions of reality is always humbling and can also be humorous and enjoyable. In more serious matters where our reputation or privileges are challenged by acknowledging our mistakes, we may pretend we always saw things correctly and were misunderstood in what we said before – or we simply deny and evade the embarrassment. As effective leaders know, it is always better to admit mistakes and if necessary say 'sorry' but it takes a contemplative detachment from ourselves and our image to do this.

One of the values of an ascetical discipline is the humility, the down-to-earthiness it brings. We never practice them perfectly because, even if we are consistent, a measure of self-congratulation can always creep in. But the humble fidelity to what we set out to do nevertheless creates a detachment, an optimum distance from ourselves and our subjective view of the world. It allows our powers of perception to function within the flow of events rather than creating a model of reality that we defend at all costs even when it has been exposed as false.

This personal trait, which we can all be subject to without knowing it, also affects the collective psyche. Electorates who have made a big mistake, which is pointed out to them by subsequent events, rarely see reason and change their mind. To change our mind is the essence of human development. Like snakes we grow skins of perception that we have to learn to shed without regret when the time comes; just as, one day, we have shuffled off our mortal coil and enter naked into the kingdom where we see with perfect vision because we no longer objectify reality.

Instead of looking at it (and getting it wrong much of the time) we see with the eyes of the artist who made both us and the world that we are ever one with. Ultimately, we see because we see that we are seen.

 

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.