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Primeira Semana do Advento

D. Laurence Freeman, OSB

Primeira Semana do Advento 2020

Em Bonnevaux, no hemisfério Norte, o Advento começa no Outono. O Natal chega no Inverno escuro e morto, quando o Sol, ainda que imperceptivelmente, renasce no solstício. A roda dá mais uma volta. O fim do ano cristão, que como todo fim também é um início, acontece quando as árvores em sua maioria, silenciosamente, perdem sua glória, e suas folhas. Estas caem uma a uma, como estrelas cadentes ou almas que morrem. A paleta mágica das cores do Outono esmaece nas silhuetas escuras das árvores nuas contra o céu: a arte da natureza em seu maior minimalismo. No chão as folhas estão por toda parte, espalhadas pelo vento, ou em lenta decomposição, naquilo que resta do calor do Sol. Os gatos adoram rolar nelas.

Então, chega o aspecto mais não contemplativo de tudo isso, Jean-Christophe com seu soprador de folhas mecânico. Fazendo um barulho horroroso (mas poupando um bocado de esforço e de tempo), ele as sopra em padrões geométricos na grama, de modo que possa recolhê-las mais facilmente para o descarte. Pensei nisso ao ler a primeira leitura da missa de hoje.

Como folhas todos nós murchamos,

levados pelos nossos pecados como folhas pelo vento

Ao ouvido não treinado, essa leitura de Isaías poderia soar demasiado negativa, própria de corações endurecidos e transviados, cheia de raiva divina, rebeldia e impureza. No entanto, não é para mero consolo que lemos a escritura; mas, para permitir que a navalha da Palavra de Deus atravesse nossos jogos mentais, e nossa arrogância. E, para nos diagnosticar. A Palavra de Deus nos lê, ainda que, em nosso orgulho, possamos pensar que somos nós a ler. Se pudermos sentir isso, ler porque somos lidos, conhecer porque somos conhecidos, quanto alívio! Apenas um diagnóstico adequado, e isso já faz com que nos sintamos melhor; um desses em que podemos confiar, e que faz todo sentido em vista de todos os sintomas que experienciamos.

Se pudermos sentir profundamente essa interação com a Palavra, faremos uma leitura de maior discernimento, e por ela seremos melhor iluminados. Também fica mais fácil de interpretar se, por exemplo, vemos a “raiva de Deus” de modo simbólico. Deus não pode estar “com raiva”. Mas, o karma, as consequências inevitáveis de nossas ações errôneas, na verdade, podem parecer a raiva de alguém que a nós se dirige, pessoalmente. A crise ecológica, por exemplo, é o resultado de pecado coletivo: uma “punição” impessoal pela avidez e pela profanação da natureza.

Essa maneira de ler a escritura significa, às vezes, que precisamos inverter os papéis descritos no texto: por exemplo, Isaías diz a Deus “nos escondeis a vossa Face, e nos deixais ir a nossos pecados”. Isso significa que escondemos de Deus a nossa face. Quando vemos isso, a doce misericórdia da Palavra nos traz um bálsamo: “nós somos a argila da qual sois o oleiro”. Você pode sentir nessas palavras a sensação de estar sendo restaurado à normalidade?

O Evangelho de hoje, no início do Advento, reforça isso com grande economia. Nele há duas mensagens que nos guiam para um bom período de preparação para o festival da Encarnação: 1. “você não conhece” e, 2. “fique alerta”. Fique alerta em uma condição de não conhecimento. É assim que nos preparamos para reconhecer e receber aquilo que vem ao nosso encontro na velocidade da luz. Essa velocidade significa que aquilo que vem ao nosso encontro já está aqui.

Laurence Freeman OSB

Bonnevaux, 29 de novembro de 2020

 

 


 

Advent Readings 2020
Laurence Freeman

Reflection for the First Week of Advent 2020

Here at Bonnevaux - in the Northern hemisphere – Advent begins in the Fall. Christmas arrives in the dead and dark of winter when the sun, though imperceptibly, is reborn at the solstice. The wheel turns again. The end of the Christian year - and like all ends it is also a beginning - happens while most trees are silently losing their glory, shedding their leaves. They fall one by one, like shooting stars or dying souls. The magical palette of Autumn fades into the dark silhouettes of bare trees outlined against the sky: the art of nature at its most minimalist. On the ground the leaves are everywhere, blown around by the wind or slowly decomposing in what’s left of the warmth of the sun. The cats love curling up in them.

Then the most un-contemplative aspect of all this, Jean-Christophe arrives with his mechanical leaf-blower. Making horrendous noise (but saving a lot of time and effort), he blows them into geometrical patterns on the grass so that he can gather them more easily for disposal. I thought of this when I read the first reading of today’s mass

We have all withered like leaves
and our sins blew us away like the wind.

The reading from Isaiah may sound over-negative to the untrained ear, full of straying and hardened hearts, divine anger, rebellion and uncleanliness. However, we don’t read scripture merely to be consoled; but to allow the razor of the Word of God to slice through our mental games and arrogance. And to diagnose us. The Word of God reads us even if we think in our pride that it is only we who are reading. If we can feel this, reading because we are read, knowing because we are known, what a relief! It makes us feel better just to get a proper diagnosis; one that we can trust and that makes sense of all the symptoms we are feeling.

If we can deeply feel this interaction with the Word, we will read it more insightfully and be better enlightened by it. It is also easier to interpret – for example to see ‘God’s anger’ symbolically. God cannot be ‘angry’. But the karma, the inevitable consequences of our own misdeeds can indeed feel like someone’s anger directed at us personally. The ecological crisis, for example, is the result of collective sin – impersonal ‘punishment’ for greed and the desecration of nature.

Reading scripture in this way, sometimes means we have to reverse the role-play described in the text: for example, Isaiah says to God ‘you hid your face from us and gave us up to the power of our sins’. This means that we hid our face from God. In seeing this, the sweet mercy of the Word brings us balm: “we the clay, you the potter, we are all the work of your hand.” Can you feel the sense of being restored to normality in those words?

The gospel today, at the beginning of Advent, reinforces this with great economy. It has two messages to guide us into a good season of preparation for the festival of the Incarnation: 1. ‘you don’t know’ and 2. ‘stay awake’. Staying awake in a condition of unknowing. That is how we prepare to recognise and receive what is coming towards us at the speed of light. This speed means that what is coming towards us is here already.

Laurence Freeman OSB

Bonnevaux 29 November 2020