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O Eu Verdadeiro

Jesus se utiliza da terminologia do nosso “si mesmo”: “Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se se perder ou arruinar a si mesmo?” (Lc 9:23-26).

É muito difícil responder a essa pergunta: “O que é o si mesmo? O que é meu verdadeiro Eu?  É algo realmente indefinível.  Porém, evidentemente, é de alguma importância que entendamos o que significa, pois, é por essa razão que nos empenhamos no trabalho de deixar para trás nosso falso eu.

É algo indefinível, porém, encontrei uma maravilhosa frase de um filósofo indiano do sétimo século.  Ele diz: “O Eu é a luz interior.  Ele é auto-evidente e, não se torna um objeto de percepção’.

No Evangelho de Tomé, encontramos a sentença oculta de Jesus: “O Reino está dentro de vocês e está fora de vocês.  Quando vocês se conhecerem, então serão conhecidos e, compreenderão que são filhos do Pai vivo.”

Acredito, seja isto a que Jesus se referiu ao responder aos fariseus que, segundo o evangelho de Lucas, o interrogaram sobre quando chegaria o Reino de Deus: “A vinda do Reino de Deus não é observável.  Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui!  Ei-lo ali!’, pois, eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17:20-21).  Se identificamos uma conexão, que acredito exista, entre o Reino de Deus e o verdadeiro Eu, o que eles têm em comum, caso de fato não sejam a mesma coisa, é que não podemos observá-los.  Não podemos dizer: “Olhe, ali está ele” ou “aqui está ele”.  O Reino de Deus é a experiência de nosso verdadeiro Eu e, não admite observação.  Em outras palavras, está além da auto-consciência.  Está além das atividades normais e familiares da mente, por meio das quais objetificamos algo e, o analisamos e, o rotulamos.  Fazemos isso constantemente, quer sejamos intelectuais, ou não.  Constantemente, intelectualizamos as coisas, objetificamos as coisas.  

Nos será de ajuda, talvez, enxergarmos esse verdadeiro Eu, que não podemos observar, em relação ao ego.  Uma história, talvez, seja a melhor maneira de captar isso.  Trata-se da história de um homem que presta um favor a um anjo e, como recompensa, ganha um servo.  Na verdade, trata-se de um servo mágico, que realiza qualquer coisa que seu mestre possa desejar.  Isto é algo maravilhoso e, assim, por alguns dias, o homem recebe tudo que deseja e, agora, ele deseja apenas que seu servo fique quieto.  Então, ele descobre que esse servo é irreprimível.  O servo, constantemente vem a ele, sem lhe conceder um só momento de descanso, sempre pedindo algo para realizar, tanto, que ele começa a desgastar completamente seu mestre, deixando-o exaurido.  O homem é levado quase ao ponto do colapso, até que chega a uma idéia brilhante.  Ele faz erigir um alto poste no meio do pátio.  Sempre que o servo vem a ele, pedindo por algo a fazer, sem que o mestre tenha nenhum desejo em particular, ele diz: “suba e desça o poste até que eu te diga para parar.”  Trata-se, na verdade, de uma boa história que, talvez, descreva a relação entre o verdadeiro Eu e o ego e, até mesmo expresse algo do mistério da prece.  O subir e descer do poste poderia ser descrito como a nossa prece.  Toda prece possui essa característica de repetição, a imobilização da mente que nos leva à eqüanimidade, à quies.  Uma disciplina e, uma disciplina repetitiva, tal como a do mantra, que mantém o ego em seu lugar: a renúncia radical de nossa falsa identificação com nosso ego.  É este estado de não-auto-consciência, que é a condição de nosso verdadeiro Eu.

É o porque de não podermos olhar para o verdadeiro Eu.  De maneira semelhante, São Irineu diz que Deus não pode se tornar um objeto de nosso conhecimento.  Só podemos conhecer Deus compartilhando o próprio auto-conhecimento de Deus.  Nunca poderemos dizer: “Olhe, ali está Deus”, como se Deus fosse algo ou alguém separado e externo a nós.  Deus nunca poderá ser um objeto de nosso conhecimento.  O Espírito de Deus é o auto-conhecimento de Deus.  E, a grande revelação cristã é a de que o dom do Espírito, todo o propósito e o significado da vida e da missão de Jesus, a transmissão do Espírito, é a transmissão desse auto-conhecimento de Deus, o amor do Pai e do Filho, que nos envolvem, nos absorvem, na direção do conhecimento de Deus.  Só podemos conhecer Deus, sendo conduzidos em direção ao Espírito de Deus. 

Assim, do mesmo modo que não podemos olhar para Deus como um objeto, não podemos olhar para o verdadeiro Eu, que somos.  Da mesma maneira, não podemos olhar para um outro Eu.  Não podemos dizer, “Meu verdadeiro Eu está olhando para seu verdadeiro Eu.”  Aquilo que Jesus descreve, é um estado de não-eu, ou melhor, um estado de não-ego, no qual podemos enxergar, conhecer e amar Cristo em nós mesmos.  O estado em que olhamos para alguém como se fosse separado de nós mesmos, é o estado egoísta, o estado de dualidade e separação.  É nesse estado, ao qual estamos todos normalmente cativados, meu ego relacionando-se com seu ego, em que ou consideramos uns aos outros atraentes, ou não atraentes.  Tanto concordamos, quanto discordamos.  Ou gostamos, ou não gostamos.  Amamos, ou odiamos.  Julgamos, ou perdoamos.  Todas essas atividades que nos relacionam, uns com os outros, atividades vitais da comunidade, estão no nível do ego.  Em uma comunidade cristã, almejamos encontrarmo-nos uns aos outros, não no nível de nossos egos separados, mas, do ponto de vista beneditino: “Amarmo-nos uns aos outros no nível de nosso verdadeiro Eu, onde somos um e, onde a unidade que compartilhamos uns com os outros, não é nada menos que o próprio Cristo.”  Não podemos separar Cristo de nosso verdadeiro Eu.  Não sei se poderíamos dizer que Cristo é nosso verdadeiro Eu, mas, não podemos separar Cristo de nosso veraddeiro Eu.

Se encontramos nosso verdadeiro Eu, então, encontramos aquela sintonia na qual nos podemos relacionar uns com os outros, em uma maneira verdadeiramente amorosa, verdadeiramente compassiva, com verdadeira empatia, isenta de julgamento, verdadeiramente tolerante, colocando de lado as fraquezas do corpo e do caráter de cada um.  Isto está muito ligado aos relacionamentos que temos uns com os outros, muito ligado, por exemplo, ao perdão.  Não poderemos verdadeiramente perdoar uns aos outros, a menos que estejamos em contato com nossa própria verdadeira identidade, nossa própria bondade essencial.  Não poderemos perdoar uns aos outros e, portanto, não podemos nos relacionar uns com os outros, a menos que estejamos em contato com aquele verdadeiro Eu.   Precisamente por este motivo, o processo do perdão ocupa um lugar tão importante na visão cristã, pois, é no processo do perdão, que nos desapegamos de nosso ego e, encontramos nosso verdadeiro Eu, de cuja experiência encontramos o poder de amarmos uns aos outros.  Cristo é o supremo exemplo e mestre disso.  É nessa prece pura, que se transcende o ego.  Na transcendência do ego, torna-se possível a reconciliação e a comunhão.

Assim, ao encontrarmos o Eu, o verdadeiro Eu, alcançamos a condição de Deus, a de sermos incondicionalmente amorosos.  Este é o nosso chamado para “sermos perfeitos, do mesmo modo que nosso Pai celestial é perfeito”, nosso Pai celestial que brilha da mesma maneira sobre os bons e os maus, que ama igualmente o bom e o mau.  Somos chamados a amar dessa maneira, a nos conhecermos uns aos outros dessa maneira, no campo comum do ser, a conhecermos e amarmos uns aos outros, em Deus.  Só poderemos fazer isso, se tivermos encontrado nosso verdadeiro Eu,  esse verdadeiro Eu para o qual não podemos olhar, mas, o verdadeiro Eu que somos, que simplesmente somos.  É por essa razão, que o ponto de partida de qualquer jornada espiritual deste tipo, precisa ser o do reconhecimento e da afirmação de nossa bondade essencial.  Provavelmente, para a maioria de nós, este é o ponto mais difícil a ser alcançado, porque, até que tenhamos chegado a esse ponto, não podemos realmente acreditar que essa jornada seja possível.  Talvez, até que tenhamos realmente alcançado essa convicção de nossa bondade essencial, estejamos até mesmo temendo descobrir quem realmente somos.