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Prece sem ego – Prece Pura

Nosso ego não é nosso verdadeiro Eu.  Na prece pura, transcendemos o ego.  É nesse trabalho da prece pura, que gradativamente diminui nossa falsa identificação com o ego e, começa a emergir o verdadeiro Eu.  Acredito seja Merton quem dizia que o verdadeiro Eu se parece a um tímido cervo que não gosta de sair dos bosques; que não gosta de ser visto.

A partir dos ensinamentos de Cassiano, dos Padres do Deserto e, de toda a tradição monástica, torna-se claro que a pureza da prece está na sua isenção de ego.  Prece pura quer dizer ‘sem ego’, ‘sem auto-consciência, auto-análise’.  A prece na qual analisamos o que está ocorrendo, observamos o resultado que estamos auferindo, não é a prece pura.  Por essa razão, a primeira regra da meditação é meditar sem pedidos ou expectativas e, de fato, sem julgar sua meditação de nenhuma maneira, para encontrar o fruto de nossa prece, não no que acontece durante a meditação, mas, em nossa vida como um todo, na transformação de nossa personalidade.  Essa prece sem ego, é precisamente ao que Santo Antão se refere, quando diz, tal como o cita Cassiano: “O monge que sabe que está em prece, não está em prece.  O monge que não sabe que está em prece, esse está verdadeiramente em prece. 

Encontramos esse mesmo entendimento da prece na tradição siríaca.  Os Padres Siríacos dizem de maneira muito simples: “Para orarmos, devemos perder minha prece.”  Devemos ir além da ‘minha prece’; e, ao deixarmos minha prece para trás, entramos na prece do Cristo.  Isso nos sugere a prece do próprio Cristo.  Todas as formas de prece, todos os métodos de prece, seja ela o Ofício Divino, seja ela alguma forma devocional, mesmo que seja a própria Escritura, qualquer forma, ritual ou método de prece é somente uma preparação, ou um lembrete, ou um incentivo, para nos aprofundarmos na pureza da prece sem auto-consciência, na prece do Cristo.

Em última análise, o mesmo se aplica ao mantra, à fórmula de Cassiano.  Poderá, talvez, chegar aquele momento em que paramos de repetir o mantra, em que somos conduzidos ao silêncio puro, à simplicidade pura.  Porém, a meu ver, para nós é muito importante que sejamos cautelosos acerca da compreensão que disso possamos ter.  Lembremo-nos da “pax perniciosa” e do sopor letalis, a paz perniciosa  e o sono letal.  O propósito do mantra não é apenas o de nos conduzir à quietude, mas, o de nos conduzir além do ego, além de todo senso de ‘eu’.  Por essa razão, uma maneira muito simples de descrever isso seria a de dizer: “Repita sua palavra até não mais conseguir repetí-la.  Não escolhemos o momento de parar de repetí-la.  E, tão logo voce se dê conta de ter parado de repetí-la, comece a repetí-la novamente.”  O problema surge quando meditamos e somos conduzidos a um estado de quietude.  Pode ser que não haja distrações, ou muito poucas distrações e, que nos sintamos em paz e, então dizemos a nós mesmos: “Estou em silêncio; não necessito mais repetir o mantra.”  É claro, o problema é o de que se dizemos que estamos em silêncio, quebramos o silêncio.  O pensamento “Estou em silêncio”é um sinal de que ainda não nos tornamos completamente simples, totalmente simples; ainda estamos auto-reflexivos.  E, há aquela radical simplicidade dos ensinamentos de Cassiano, o porquê de sua insistência na repetição do mantra nos momentos da adversidade e, nos momentos da prosperidade.

Na prece pura há a ausência do ‘eu’ como ego separado e, até mesmo a ausência de Deus como objeto da percepção, de todas as idéias e imagens de Deus.  Esta, é claro, é uma descrição da prece apofática e, toda essa tradição da prece pura está na tradição apofática.  Na igreja ortodoxa grega, a relação entre a prece apofática (a prece que nos leva além de todos os pensamentos e palavras e afirmações acerca de Deus), e a prece catafática (a prece em que utilizamos palavras, pensamentos e imagens), os pensadores ortodoxos  acreditam, elas são duas formas válidas de prece, duas dimensões, porém, eles priorizam a prece apofática que nos leva além de todas as afirmações e imagens acerca de Deus. 

Quando pensamos na prece, na verdade, por toda nossa vida, precisamos trabalhar objetivando a pobreza, o objetivo em direção ao qual estamos trabalhando.  Se tivéssemos que responder à pergunta: “Qual é o objetivo de nossa vida?” provavelmente, diríamos ser ‘a libertação’, ou ‘a salvação, ou ‘a iluminação’.  E, diríamos que a renúncia é o meio pelo qual podemos chegar a esse objetivo.  Parece-me sempre haver algo de errado nisso.  Porém, se invertemos essa ordem, parece-me haver algo de muito certo com relação a isso.  O objetivo é a renúncia; e, a libertação, ou a iluminação, é o meio.  Em outras palavras, nunca tentamos possuir o objetivo, nunca tentamos fazer de Deus um objeto, nunca tentamos olhar nosso verdadeiro Eu.  Se a renúncia for o objetivo, se a pobreza for o objetivo, então, teremos chegado, sem dúvida quanto ao porque de a pobreza de espírito ser a primeira das bem aventuranças.  É nessa pobreza que encontramos a felicidade, pois o objetivo está compreendido, nunca conquistado.  O processo da prece é o processo da compreensão do que é, não o de fazer com que algo aconteça.