Carta 40 - A Contemplação da Natureza e a Oração Silenciosa (19)

ESCOLA DE MEDITACAO WCCM

Ano 2 - Carta 40

 

A Contemplação da Natureza e a Oração Silenciosa

Cara(o) Amiga(o)

As ideias de Evágrio sobre a contemplação de Deus através da natureza e das escrituras, e através da oração pura, eram uma ideia fundamental dos Padres e Madres do Deserto: “Um dos sábios da época foi encontrar o homem santo, Antão do deserto, e perguntou-lhe: 'Padre, como pode ser feliz quando está privado dos livros que são fonte de consolação?”' Antão respondeu: "Meu caro amigo filósofo, o meu livro é a natureza das criaturas, e este livro está sempre diante de mim quando eu quero ler a palavra de Deus." 

 

Encontramos a mesma ideia expressa no cristianismo celta: “Através das palavras da Escritura e das espécies da criação a luz eterna é revelada”. (João Escoto Erígena c.800-c.877 dC). Trata-se de uma experiência humana, não ligada a tempo e lugar. A contemplação da natureza nos ajuda a deixar de lado os nossos pensamentos e imagens que obscurecem a Presença Divina. Tenho certeza que muitos de vocês, lendo estas "Cartas", tiveram uma experiência semelhante a fronteiras que caem, a um sentido de interrelação, um senso de admiração e reverência, um senso de "mais", quando confrontados com a beleza da natureza, com a beleza de um pôr do sol.

 

Essa mesma experiência também é proporcionada pela oração silenciosa, à qual conduz a muitas formas de oração. Mas, para mim, é especialmente a meditação que permite que isso aconteça. A chave, em todos esses modos de oração, é a de deixar para trás pensamentos e imagens, até mesmo de Deus: “Quando você está orando, não imagine a Divindade como alguma imagem formada dentro de si mesmo. Evite também permitir que o seu espírito se impressione com o selo de alguma forma particular, mas sim, livre de toda a matéria, aproxime-se do Ser imaterial e então alcançará a compreensão”. Este desnudar-se gradual de todas as imagens e formas de si-mesmo, e de Deus, permitirá o contato direto com a Realidade Divina.

 

As duas etapas de da jornada espiritual de Evágrio, 'praxis' e 'theoria' (a oração, a purificação dos desejos do ego e a contemplação) andam de mãos dadas. Nós não estamos falando de um processo linear, não é uma questão de tornar-se inteiro antes da contemplação poder ter lugar. Algumas vezes é um processo de sobreposição, outras vezes, um súbito aprofundamento da consciência, uma "metanóia", um olhar em volta, uma nova maneira de ver a realidade, amiúde, é na verdade o início da viagem. Não devemos assumir que é só o nosso esforço que vai nos levar à Presença, a graça tem um papel igualmente importante, como Evágrio sublinha:

 

"O Espírito Santo se compadece da nossa fraqueza e, embora sejamos impuros, ele vem nos visitar, muitas vezes. Se ele encontrar nosso espírito orando a ele, por amor à verdade, então ele descerá sobre esse espírito e dissipará todo o exército de pensamentos e raciocínios que o acossam. E ele também o inspirará para as obras da oração espiritual.”

Nós não precisamos ser perfeitos no início da nossa peregrinação para o nosso verdadeiro Eu e para o Cristo que nos habita. Tudo o que precisamos fazer é perseverar fielmente em nosso caminho de oração e estar abertos à transformação. Abandone o medo, para que o amor possa ocupar seu lugar.

por Kim Nataraja

 

  

 Até a próxima semana!

Escola da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
BRASIL

 

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Na ‘Conferência IX’ de João Cassiano, Abba Isaac, um dos Padres do Deserto, começa a ensinar a Cassiano e seu amigo Germano, sobre a oração. Ele primeiro enfatiza que existem diferentes tipos de oração. “O apóstolo [São Paulo] aponta quatro tipos de oração. ‘Recomendo, pois antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens’ (1Tm 2,1). Ora, pode-se ter certeza de que essa divisão não foi feita inconsequentemente pelo Apóstolo.

Então, devemos primeiro investigar o que se quer dizer por pedido, por oração, por súplica e por ação de graças.” Abba Isaac continua com explicações detalhadas dos tipos de orações mencionados, quando cada um deles é apropriado, e conclui dizendo: “Portanto, todos estes tipos de orações... são valiosos para todos os homens [e mulheres] e, de fato, são realmente necessários.” Ele chega a ilustrar como o próprio Jesus usava cada um destes tipos de orações. Ele segue com uma explicação da oração que Jesus nos ensinou, o ‘Pai Nosso’, e a denomina a mais perfeita das orações.

Mas, finalmente, ele chega à mais desejável de todas as orações: a ‘oração pura’, ‘contemplação’, quando não mais estamos conscientes de que estamos orando e, então, ele cita Santo Antão: ‘A oração não é perfeita quando o monge está consciente de si mesmo e do fato de que ele está realmente orando.’ Abba Isaac enfatiza que todas as formas de oração podem conduzir à ‘oração pura’: o que se faz necessário é persistência e fé.

Ele, então, os incita para que eles “sigam o preceito do Evangelho, que nos instrui a entrar em nosso quarto (Mt 6,6), e fechar a porta, para então orar ao nosso Pai. Nós oramos em nosso quarto quando retiramos nossos corações completamente da confusão de todo pensamento e preocupação, e revelamos nossas orações ao Senhor em segredo, por assim dizer, intimamente. Nós oramos com a porta fechada quando, com os lábios cerrados, e em total silêncio, oramos “àquele que busca corações, e não vozes”.

Aqui ele mostra o fundamento da contemplação, sem dizer a eles como ‘entrar em seu quarto’. Mas, na próxima Conferência ele explica como fazer isso, quando Cassiano e Germano mostram que estão prontos para esse tipo de oração ao fazerem a pergunta correta. Agora chegamos ao caminho de oração que John Main encontrou, para sua alegria, nos ensinamentos de Cassiano: orar com uma ‘fórmula’, que leva à contemplação.

Abba Isaac não restringe este tipo de oração a certos períodos do dia, mas incita Cassiano e Germano no sentido de ‘orar sem cessar’; “Você deveria, eu digo, meditar constantemente sobre este verso em seu coração. Você não deveria parar de repeti-lo enquanto estiver fazendo qualquer tipo de trabalho, ou realizando algum serviço, ou participando de uma jornada. Medite sobre o verso enquanto estiver dormindo, e comendo, e cumprindo as menores necessidades da natureza.”

Embora não se possa negar a importância deste tipo de oração para nós, e para os Cristãos primitivos, devemos lembrar que é apenas uma das formas de oração, dentre tantas outras. Laurence Freeman usa a imagem de uma roda para exemplificar os tipos de oração: “Pense na oração como uma grande roda. A roda gira em nossa vida em direção a Deus.... Os raios da roda representam os diferentes tipos de oração. Nós rezamos de formas diferentes, em horários diferentes, e de acordo com o nosso estado de espírito... Os raios são as formas ou expressões da oração, que se ajustam ao centro da roda, que é a oração do próprio Jesus... Todas as formas de oração são válidas. Todas são efetivas. Elas são informadas pela oração da consciência humana de Jesus que está dentro de nós, pela graça do Espírito Santo.” (Laurence Freeman)

 

por Kim Nataraja