Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quarta-feira de Cinzas

D. Laurence Freeman

Quaresma2017 inicio

Hoje, com a sensação poeirenta das cinzas em nossa fronte (isso se você aprecia o ritual, ou, se esse não for o caso, em uma maneira mais conceitual), damos início a uma jornada. Caso você queira hoje receber as cinzas, mas não tem tempo para ir a uma igreja, ou se você não gosta da igreja, peça a uma amiga ou amigo para que as coloque em sua fronte. Isso pode ser feito com o sinal da cruz e umas poucas palavras: “Lembre-se de que és pó e ao pó retornarás”. Ou, de forma um pouco menos rígida, mas não menos radical: “Modifique-se e viva o Evangelho”.

O que importa é a jornada, e não a maneira como você a inicia. Trata-se de uma jornada de quarenta dias, um número que simboliza muitas coisas: um período de transição, de correção, de purificação. De acordo com o Talmud, ao atingir a idade de quarenta anos a pessoa torna-se capaz de um outro nível de sabedoria. Os quarenta dias que antecedem o Yom Kippur são vistos como um especial período para o crescimento pessoal.

Antes de mais nada, decida se você quer mesmo fazer essa jornada. Tal como ao começar a meditar, decida se você quer começar, sem se preocupar se você irá terminá-la. Espiritualmente, não há vencedores da corrida, apenas aqueles que continuaram a caminhar. E, aqueles que caem ao lado do caminho, acabam por ser carregados até o final. No fim  das contas, o universo é amigável para todos.

Você poderá entrar nesse período da Quaresma com a sensação de estar em situação de confusão, precisando se reequilibrar, descartar bagagem interior desnecessária, apegos, remorsos, culpa, ansiedade.  Basta saber que isso é possível, e que existe um plano para alcançar isso. Ou, você poderá estar se sentido em suficiente equilíbrio de modo a saber que ainda lhe falta um longo caminho a percorrer. Assim, você poderá começar a jornada deste ano com a positiva intenção de se encaminhar para um auto-conhecimento mais profundo e para uma claridade mais brilhante.

Qualquer jornada pode começar com uma mistura de intenções e de motivos. Poderão mudar, à medida que você muda, para uma peregrinação (sem objetivo exceto o de chegar) ou um mergulho do mais alto penhasco do mundo para um espumante mar azul (a chegada está na viagem). As cinzas servem de lembrete de que apesar de nossa complexidade temos um núcleo radicalmente simples.  A mortalidade que temos em comum nos lembra que essa é uma oportunidade para um mais elevado realismo e deleite pela vida, em lugar de medos e neuroses. Assim como as cinzas são um sinal exterior, a repetição do mantra é um sacramento interior. Trata-se de ações que nos permitem parar de pensar acerca de tudo, e de sermos um com tudo.

Nosso modelo para a Quaresma é o deserto no qual Jesus entrou para esses quarenta dias. Ele foi “conduzido’ para lá. Nessa jornada nem tanto escolhemos, quanto consentimos. Ele foi “tentado”.  Se não formos testados, permaneceremos bloqueados pelas nossas limitações, entendendo-nos frustrados em vez de seres que podem ser renovados.

Por que é que nem todas as pessoas embarcam nessa interessante jornada? Porque o caminho é o da pobreza. Desapego e simplificação. Isso nos assusta porque tememos acabar sem nada. Na verdade, esse é o verdadeiro objetivo. Não sejamos nós a perseguir o evangelho pervertido da prosperidade e do sucesso. Se essa falsa boa nova, que não é notícia boa, se tornar nosso caminho, ora, quarenta dias depois descobriremos nem ter saído da estaca zero. O objetivo (depois de quarenta dias de extensão variável) é o de não desejarmos ter posses com o mesmo fervor que as pessoas costumam ter de possuí-las. Essa pobreza é o significado da liberdade. É meditação. É a jornada para o deserto.

 


 

Texto original em inglês

Ash Wednesday

Today, with the gritty feel of ash on your forehead, (that is, if you like the ritual, or in a more conceptual mood if you don’t), we begin a journey. If you would like to receive the ashes today but don’t have time to go to a church, or if you don’t like church, ask a friend to put it on your forehead. They can do it with the sign of the cross and a few words. ‘Remember you are dust and unto dust you will return’. Or, a little less starkly but no less radically, ‘Turn around and live the gospel’.

The journey is the thing, not the way you begin it. It is a journey of forty days, a number which symbolises many things – a time of transition, correction, purification. According to the Talmud at the age of 40 one becomes capable of another level of wisdom. The forty days before Yom Kippur are seen as a  special time for personal growth. 

First, decide if you really want to make this journey. As with starting to meditate, just decide if you want to begin, without worrying about whether you will finish it. Spiritually, there are no winners of the race, only those who kept going. And those who dropped by the wayside eventually get carried the rest of the way. The universe is friendly to all, in the end. 

You may enter this season of Lent with a sense that you are in a bit of a mess and that you need to be re-balanced and to shed unnecessary inner baggage, attachments, addictions, regret, guilt, anxiety. It’s enough to know this is possible and that there is a plan for achieving it. Or you may feel balanced enough to know that you still have a long way to go. So you can start this year’s journey with the positive intention to go into deeper self-knowledge and brighter clarity.

Any journey can begin with a mixture of intentions and motives. These may then change, as you change, into a pilgrimage (no goal except that of arriving) or a dive from the world’s highest cliff-edge into a sparkling blue sea (the arriving is in the travelling) . The ash is a reminder that despite our complexity we have a radically simple core. Our common mortality reminds us of this as an opportunity for heightened realism and relish for life rather than fear and neurosis.  As the ash is an outward sign, saying the mantra is an interior sacramental. They are acts that allow us to stop thinking about it all and to be one with it all.

The desert that Jesus entered for his forty days is our template for Lent. He was ‘led’ there. On this journey we don’t so much choose as consent. He was ‘tempted’. If we aren’t tested we remain blocked by our limitations, seeing ourselves as  frustrated rather renewable beings. 

Why doesn’t everyone jump on this interesting band-wagon and make this journey? Because the way is poverty. Detachment and simplification. This scares us because we fear we may end by having nothing. Actually, that truly is the goal. Let’s not follow the perverse gospel of prosperity and success. If that fake news, that is not good news, becomes our way, well, forty days later we will find that we haven’t even left base. The goal (after forty days of variable length) is that we desire not to have possessions with just the same fervour as people generally desire to have them. This poverty is the meaning of freedom. It is meditation. It is the journey into the desert.

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.