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Reflexões da Quaresma

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Quinta-feira após as Cinzas

D. Laurence Freeman

Vamos recordar o arquétipo da Quaresma, que nos nutre nesta jornada, que é o tempo que Jesus passou jejuando no deserto.

Então Jesus foi guiado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Após jejuar quarenta dias e quarenta noites, estava faminto. O tentador veio a ele e disse, “Se você é o Filho de Deus, mande essas pedras se tornarem pães.” Jesus respondeu, “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”.

Quando você está realmente atento a algo, totalmente absorvido, não é distraído por qualquer coisa menor, como não ter comido por quarenta dias. Estar totalmente absorvido em algo é uma forma de bem-aventurança. Se, por outro lado, estamos constantemente lanchando, consumindo, digerindo ou regurgitando textos, tweets e e-mails, podemos facilmente esquecer que a fome é um ótimo tempero. Não estou me referindo à fome pelas necessidades vitais, que é um escândalo e uma vergonha qualquer pessoa precisar enfrentar. Refiro-me à fome de realidade que o nosso viciante consumo bloqueia e nega. O sinal de excesso de consumo é a falta de compaixão pelas necessidades dos outros.

Em um mundo de política de Brexit e Twitter, a única certeza é a incerteza. Isso faz os mestres financeiros do universo tremerem, porque o crescimento depende do investimento, e o risco é o grande medo. Assim, este é o momento de imaginar se nós temos que tornar cada pedra em nosso trajeto em uma fatia de pão e geléia.

Vida é crescimento e mudança. A tradição serve a vida, não a sufoca. Metas e objetivos para o crescimento precisam ser temperados e treinados pelos filamentos de significado e sabedoria que nos conectam às nossas raízes, tanto histórica como espiritualmente. O "tentador" quebra esses filamentos despertando as perenes sementes da ganância e da luxúria. Logo estamos correndo loucamente pelo deserto, transformando cada pedra em um pedaço de pão desnecessário. Não podemos consumi-los todos, o que nos frustra, mas também perdemos a fome por verdade, que torna o pão significativo e gratificante.

Se um país decide que tem de ir para a guerra, precisa declarar seus objetivos de guerra e parar quando eles são alcançados. Se o mundo globalizado está apontando para o crescimento econômico, tem que declarar seus objetivos, como pode ser distribuído e seus limites. Crescimento ilimitado é câncer.

A moderação realmente cura. O caminho do meio do Buda ou de São Bento, o ‘caminho estreito’ de Jesus, que ‘leva à vida’, é a jornada. A fome pela realidade também compreende a fome por verdade. Como Orwell previu, e Goebbels provou, a verdade pode ser alterada pela manipulação. "Fatos alternativos", ou mentiras, podem ser jogados nos olhos inocentes de qualquer declaração sincera. Como se diz que os agentes de espionagem descobrem, depois de terem aprendido seu ofício de trapaça, fica difícil saber para qual lado você realmente está servindo.

Quando sentimos a fome por realidade, provamos a palavra de Deus. A cinza de ontem pode ter desaparecido, mas a viagem já começou. Cada vez que meditamos, repetimos a resposta de Jesus aos poderes do autoengano.

 


 

Texto original em inglês

Thursday after Ash Wednesday

Let’s recall the archetype of Lent we are being nourished by on this journey, which is the time Jesus spent fasting in the wilderness. 

Then Jesus was led by the Spirit into the wilderness to be tempted] by the devil. After fasting forty days and forty nights, he was hungry. The tempter came to him and said, “If you are the Son of God, tell these stones to become bread.” Jesus answered, “It is written: ‘Man shall not live on bread alone, but on every word that comes from the mouth of God]”

When you are truly attentive to something, fully absorbed in it, you are not distracted by anything as minor as not having eaten for forty days. To be fully absorbed in anything is a form of bliss. If on the other hand we are constantly snacking, consuming, digesting or spewing texts, twitters and emails we may well forget what a great sauce hunger is. I am not referring to the hunger for the necessities of life, which it is a scandal and shame that anyone should have to face. I mean the hunger for reality that our addictive consumption blocks and denies. The sign of over-consumption is a lack of compassion for the needs of others.

In a world of Brexit and Twitter politics the only certainty is uncertainty. This makes the financial masters of the universe tremble because growth depends on investment and risk is the great fear. So, this is the time to wonder if we have to turn every stone in our path into a loaf of bread and jam. 

Life is growth and change. Tradition serves life, it doesn’t stifle it. Goals and objectives for growth need to be tempered and trained by the filaments of meaning and wisdom that connect us to our roots, both historically and spiritually. The ‘tempter’ breaks those filaments by awaking the perennial seeds of greed and lust. Soon we are running crazily around the desert, turning every stone into an unnecessary loaf of bread. We can’t consume them all, which frustrates us, but we have also lost the hunger for truth that makes bread meaningful and enjoyable.

If a country decides it has to go to war it should declare its war aims and stop when they are achieved. If the globalized world is aiming at economic growth it should declare its goals, how it can be distributed and its limits. Unlimited growth is cancer.

Moderation really cures. The middle way of the Buddha or St Benedict, the ‘narrow little path’ of Jesus that ‘leads to life’ is the journey. The hunger for reality also comprehends hunger for truth. As Orwell foresaw, and Goebbels proved, truth can be altered by manipulation. ‘Alternative facts’, or lies, can be thrown into the innocent eyes of any sincere statement. As espionage agents are said to discover after they have learned their craft of deception, it is soon hard to tell what side you are really serving. 

When we feel the hunger for reality, we taste the word of God. Yesterday’s ash may have disappeared but the journey has begun. Each time we meditate we repeat Jesus’ response to the powers of self-deception.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.