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Sexta-feira após as Cinzas

D. Laurence Freeman

A jornada de quarenta dias recomeça, desde o início, a cada dia. Todas as realizações ou falhas são deletadas ou se tornam arquivos sem importância na história do "eu". Não quer dizer que o que ocorreu ontem não conta para nada. Conta sim. Mas seu significado  somente é compreendido quando vemos com os olhos da misericórdia e humor. O julgamento e condenação auto-importantes, o egoísta e desagradável elogio à culpa, não têm conexão com a realidade de como o passado se torna presente. A tentação de tornar pedras em pão é ganância. A tentação que encontraremos nesta jornada hoje, assim como Jesus encontrou antes de nós, é a vaidade e o orgulho.

O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: 'Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra'. Disse-lhe Jesus: "Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'".

Muitos projetos de sucesso entraram em colapso por causa de uma última mas desnecessária explosão de orgulho egoísta. A ideia de ultrapassar a si mesmo. Testar para ver o quão onipotente é o seu poder sobre os outros. É a mão derradeira do jogador com qual ele aposta tudo na próxima jogada dos dados, dividido entre a esperança de vencer e de perder. Todo o templo do ego é desestabilizado pelo desejo de testar sua estabilidade e pelo sentimento de que a aclamada conquista pode ser na verdade ilegítima. Testar a Deus é auto-destruição. 

Jesus não foi tentado pelo pão. Mas o ponto mais alto da Cidade Santa e a sua maior construção religiosa baseada no ego podia ser a derrota de qualquer asceta ao fim de seus quarenta dias. O diabo citando as escrituras acontece sempre que torcemos a verdade em nossas mentes auto-iludidas a fim de instalar o ego onde Deus deveria estar. 

E onde deveria estar Deus? No pico de nossa "escala de valores"? Isso seria não mais do que o estranho pequeno deus do fundamentalismo ou da superstição. 

A palavra "templum" originalmente significava não a estrutura que construímos - Praça de São Pedro, a Abadia, a Kaaba, a Casa Branca. Significava o espaço vazio de adoração. Na meditação, reconhecemos a natureza não-estruturada, inteiramente simples, de Deus. Se podemos ficar em pé sobre ele e olhar tudo de cima para baixo, não se trata de Deus. 

 


 

Texto original em inglês

Friday after Ash Wednesday

The journey of forty days begins afresh, from the beginning, every day. All achievements or failures are deleted or become unimportant archives in the story of the self. Not that what happened yesterday doesn’t count for anything. It does. But its meaning is only understood when we view it with the eyes of mercy and humour. The self-important judging and condemnation, the praising, self-preening and nasty blaming of the ego, have no connection with the reality of how the past becomes the present. The temptation to turn stones into bread is greed. Today’s temptation that we will encounter on this journey, as Jesus did before us, is vanity and pride.

Then the devil took him to the holy city and had him stand on the highest point of the temple. “If you are the Son of God,” he said, “throw yourself down. For it is written: ‘He will command his angels concerning you, and they will lift you up in their hands, so that you will not strike your foot against a stone.’”Jesus answered him, “It is also written: ‘Do not put the Lord your God to the test.’”

Many a successful project has collapsed because of a last but quite unnecessary burst of egotistical pride. Over-reaching oneself. Testing to see just how omnipotent is your power over others. It’s the gambler’s last hand with which they put everything on the next throw of the dice, torn between hoping to win and hoping to lose. Every temple of the ego is destabilized by the desire to test its stability and the feeling that one’s acclaimed achievement might actually be illegitimate. Putting God to the test is self-destruction.

Jesus wasn’t tempted by bread. But the highest pinnacle of the holy city and  its greatest religious ego-construction could be the downfall of any ascetic close to the end of their forty days. The devil quoting scripture happens whenever we twist the truth in our self-deluded minds in order to install the ego where God should be.

And where should God be?  At the summit of our ‘value-system’? That would be no more than the strange little god of fundamentalism or superstition. 

The word ‘templum’ originally meant not the structure we build – St Peter’s, the Abbey, the Ka’aba, the White House. It meant the empty space of worship. In meditation we acknowledge the unstructured, wholly simply, nature of God. If we can stand on it and look down on everything, it isn’t God.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.