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Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Primeiro Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Primeiro domingo da quaresma 2017

Conheci uma mulher hindu recentemente que me disse estar na expectativa da Quaresma. Ela não é cristã, mas tem muito amor por Nossa Senhora e Jesus. Guardar a Quaresma, na visão dela, foi uma oportunidade maravilhosa de renovação e aprofundamento de sua devoção. Na compreensão dela desta época, há uma renovadora ausência de qualquer senso de punição, penitência ou culpa a respeito do pecado.

Os princípios essenciais da Quaresma expressam uma percepção humana básica em torno da necessidade de redução, moderação e purificação. É claro que uma parte de nós anseia por adquirir, acumular e possuir. Mas, assim, que nossa desordem e nossas possessões atingem um certo nível, começamos a achá-las opressivas e tentamos nos desembaraçar delas. É aí que começa o conflito. Queremos ser pobres e simples. Mas ainda não. Lemos, com entusiasmo, sobre o estado de pobreza e simplicidade. Assistimos filmes e ouvimos palestras a respeito. Podemos nos tornar PhD no assunto. Mas continuamos adquirindo e acumulando e até nossa vida espiritual se torna um outro aspecto deste culto ao desejo.

A mulher hindu nos recorda que é bom simplesmente celebrar e obedecer ao instinto de nos despojarmos do que nós temos, mas de que não mais precisamos. Jejuar – ou seu equivalente moderno, fazer dieta – é uma forma de fazer isso, mesmo enquanto ainda estamos, secretamente, apegados àquilo que estamos tentando deixar partir. O que importa na prática não é a perfeição dos nossos esforços ou nossa auto-graduação, mas nossa motivação. Na dieta, nossa motivação provavelmente é nossa auto-imagem – o que eu sinto quando me olho no espelho ou o que os outros pensam quando olham para mim. No jejum, a motivação não é nossa aparência ou o que sentimos, mas o grau em que mantivemos o turbilhão de ilusões ao redor de nosso egocentrismo. Na Quaresma, nosso foco está naquilo que jamais conseguimos ver objetivamente: nosso verdadeiro Eu (self)

(Não pomos nossos olhos nas coisas visíveis mas nas coisas invisíveis. As coisas visíveis são temporais, as invisíveis, eternas. 2 Cor, 4: 18).

O que há de tão especial nestes quarenta dias? Não deveríamos fazer estas coisas todos os dias? Sim e é por isso que São Bento diz que a vida do monge (= à do meditante) é uma perpétua Quaresma.  Deveríamos manter nossa casa limpa o ano inteiro; mas na primavera nós damos um trato a mais e nos sentimos melhores ao fazer isso, apesar do esforço.

Ao final dos seus quarenta dias de jejum, o que Jesus conquistou? (Achamos difícil, atualmente, fazer qualquer coisa sem prensar que estamos conquistando algo). Ele sentiu fome. O que é compreensível. Ele foi capaz de receber consolo autêntico, não falso. E, acima de tudo, ele foi capaz de distinguir, sem qualquer sombra de dúvida ou atraso, a diferença entre ilusão e realidade.

 

Quaresma 2017

Estas leituras diárias, escritas por Laurence Freeman, um monge beneditino e diretor da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, servem como ajuda para termos uma melhor Quaresma. Este é um tempo definido de preparação para a Páscoa, durante o qual uma atenção especial é dada para a oração, maior generosidade  com os outros e o auto-controle.

É um costume abrir mão de algo, ou restringir o uso de alguma coisa durante a Quaresma mas também fazer algo adicional que beneficiará a sua espiritualidade e o tornará mais simples.  A leitura destas reflexões proverá coragem para que se torne a meditação uma prática diária ou, se já é, que se aprofunde a prática, preparando-se para os momentos de meditação com mais cuidado. As meditações da manhã e da noite se tornam então os centros espirituais de seu dia. Esta é a tradição, um modo muito simples de meditação, que nós ensinamos: 

Sente-se com a coluna ereta em quietude. 

Feche seus olhos levemente. 

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta. 

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha". 

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente. 

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual. 

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra. 

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.

Meditar com outros, em um grupo semanal, ajuda bastante a desenvolver a prática em sua vida diária.

 


 

Texto original em inglês

First Sunday of Lent

I met a Hindu woman recently who told me she was looking forward to Lent. She was nota  Christian but had a great love for Mother Mary and Jesus. Observing Lent in her view was a wonderful opportunity for personal renewal and a deepening of her devotion. Her understanding of this season was refreshingly lacking in any punitive sense of penance or guilt about sin.

The essential principles of Lent express a basic human intuition around the need for reduction, moderation and purification. One side of us, of course, seeks to acquire, hoard and possess. But as soon as our clutter and possessions reach a certain level we begin to find them oppressive and seek to detach from them. That’s when the struggle starts. We want to be poor and simple. But not quite yet. We enthusiastically read about the state og poverty and simplicity. We watch movies and listen to talks about it. We may do a PhD about it. But we continue to acquire and hoard and even our spiritual life becomes another aspect of this cult of desire.

The Hindu woman reminds us that it is good simply to celebrate and obey the instinct to divest ourselves of what we have, but what we no longer need. Fasting – or its modern equivalent in dieting - is a means of doing this, even while we are still secretly clinging to what we are trying to let go of. What matters in the practice is not the perfection of our efforts or our self-grading but our motivation. In dieting our motivation is likely to be our self-image – what do I feel when I look in the mirror or what do others think when they look at me. In fasting the motivation is not what we look like or feel like but the degree to which we have shed the illusions swirling around our egocentricity. In Lent our focus is on what we can never see objectively: our true self. (So we fix our eyes not on what is seen, but on what is unseen, since what is seen is temporary, but what is unseen is eternal. 2 Cor 4:18)

What’s so special about these forty days? Aren’t we meant to be doing this every day? Yes and that is why St Benedict says the monk’s (= the meditator’s) life is a perpetual Lent. We should keep our houses clean all year; but in the Spring we give them a special spruce-up and feel better for doing so, although it’s an effort.

At the end of his forty days’ fast what had Jesus achieved? (We find it hard today to do anything without thinking we are achieving something). He felt hungry. Which was understandable. He was able to receive authentic, not false consolation. And above all he was able to distinguish without a blink of doubt or delay the difference between illusion and reality.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.