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Reflexões da Quaresma

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Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Nesta primeira semana de Quaresma, eu gostaria de explorar como podemos distinguir melhor entre ilusão e realidade, assim como Jesus, depois de seus quarenta dias. Antes, porém, examinemos os meios de fazer isso, o que os budistas chamam de “ferramentas hábeis” e qual é o significado daquilo que os cristãos há muito chamam de ascese.

“Ascetismo” traz as mesmas associações de “austeridade”. Mas quando você conhece um verdadeiro asceta, é como se encontrasse um atleta treinado no auge de seu condicionamento, que ama sua disciplina de exercício e estilo de vida, livremente escolhidos. Tais pessoas irradiam alegria e bem-estar e nos fazem sentir ligeiramente invejosos em nossa morosidade, enquanto também, espero, nos motivam a sair do sofá e começar a viver. As ferramentas do asceta são jejum, esmola e oração.

Como podemos entendê-los hoje? O jejum envolve uma renúncia voluntária, dizer “não” ou “ainda não” aos nossos desejos naturais ou habituais. Como os outros dois pilares da vida espiritual, este é um princípio abstrato, um ideal, um valor. Ele precisa ser associado a uma prática para encarnar-se e ser real. Só podemos viver verdadeiramente como seres encarnados O ser humano não pode ser muito abstrato por muito tempo sem implodir. Contudo, “ainda em minha carne verei a Deus”, disse o pobre Jó depois de suas provações. (Jó 19:26). O jejum é necessário para a saúde espiritual. Então, a que vamos renunciar?

Dar esmolas tem a ver com desapego. Aquilo de que nos desapegamos pode ser dinheiro, tempo, a atenção que tiramos de nós mesmos e colocamos incondicionalmente no outro. Não se trata apenas de quanto ou de quantas vezes. Para o meditante, a atenção é obviamente a chave para este pilar da vida espiritual. Simone Weil disse que a atenção é a forma mais rara e mais alta de generosidade. A qualidade da atenção desinteressada prova a sinceridade do que damos e do que verdeiramente nos desprendemos. Do que estamos nos desprendendo?

A oração assume muitas formas, mas é essencialmente a atenção pura. Seu efeito é fazer-nos sentir - por mais distraídos que estejamos, por mais longe, ou por mais tempo que tenhamos vagado, por mais separados de nossa base que nos sintamos - que chegamos em casa, aliviados, talvez até surpresos, por encontrar uma acolhida calorosa e amorosa. Sentar-se em meditação é voltar para casa. Essa oração pura - que purifica radicalmente a imaginação e a fantasia, desaperta o apego do desejo e do medo e nos simplifica para aceitar consolo autêntico e não falso - é simplesmente voltar para casa.

Emocional e espiritualmente, uma casa é um centro. É o ponto de referência do significado, não importa onde mais possamos ir no mapa. Se chegamos em casa e encontramos um terreno vazio, nossa ligação com a realidade é explodida. Temos de começar de novo, do zero. Mas se há, essencialmente, um centro de toda a realidade, se a realidade é essencialmente simples e completa, então esse centro está em toda parte. Nós o descobrimos primeiro encontrando nosso próprio centro, entrando no que Jesus chama de nosso “quarto interior”, onde somos abraçados pela presença que tudo abraça e tudo preenche.

Uma boa idéia. Mas, assim como os outros pilares da vida espiritual, como nossa ferramenta de libertação da ilusão e de liberdade para sermos reais, a oração requer uma prática. Para o meditante atual, é uma renovação do compromisso e revigoração da motivação. Para o meditante que inicia o caminho, é a coragem de começar.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week One

I’d like to explore in this first week of Lent how we, like Jesus after his forty days, can better distinguish between illusion and reality. But first, let’s look at the means of doing this, what Buddhists call ‘skilful means’ and which is the meaning of what Christians have long called ascesis.

‘Asceticism’ rings the same bells as ‘austerity’. But when you meet a true ascetic, it’s like meeting a trained athlete in the peak of condition and loving their freely-chosen discipline of exercise and lifestyle. They radiate joy and well-being and make us feel slightly envious in our sluggishness while also, hopefully, motivating us to get off the couch and start living. The means of the ascetic are fasting, almsgiving and prayer.

How can we understand these today? Fasting involves a willing giving-up, saying ‘no’ or ‘not yet’ to our natural or habitual desires. This, like the other two companion pillars of spiritual living, is an abstract principle, an ideal, a value. It needs to be associated with a practice to take flesh and be real. We can only truly live as embodied beings Humans being can’t be too abstract for long without imploding. Yet from my flesh I shall see God, said poor Job after his ordeals. (Job 19:26). Fasting is necessary for spiritual health. So, what are we going to give up?

Almsgiving is about letting go. What we let go of may be money, time, the attention we take off ourselves and put unconditionally on another. It’s not just how much or how often. For the meditator, attention is obviously the key to this pillar of spiritual living. Simone Weil said that attention is the rarest and highest form of generosity. The quality of selfless attention proves the sincerity of what we give and truly let go of. What are we letting go of?

Prayer takes many forms but is essentially about pure attention. Its effect is to make us feel – however distracted we are, however long and far we have wandered, however separated from our base we feel – that we have come home, relieved, maybe surprised, to find a warm, a loving welcome. To sit in meditation is to come home. This pure prayer – that radically purifies the imagination and fantasy, loosens the grip of desire and fear and simplifies us to be able to accept authentic not false consolation – is simply about coming home.

A home is a centre, emotionally and spiritually. It is the reference point of meaning for wherever else we may go on the map. If we come home and find an empty lot, our grip on reality is exploded. We have to start again, from scratch. But if there is, essentially, one centre of all reality; if reality is essentially simple and whole, then that centre is everywhere. We discover it first by finding our own centre, entering what Jesus calls our ‘inner room’ where we are embraced by the presence which embraces everything and fills everything.

A nice idea. But, like the other pillars of spiritual living, as our means of becoming free from illusion and free to be real, prayer requires a practice. For the current meditator, a renewal of commitment and refreshment of motivation. For the meditator starting out,  the courage to begin.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.