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Reflexões da Quaresma

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Terça-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

O que nós obtemos da prática espiritual? Se tudo correr bem, nada que possamos transformar em dinheiro ou usar para deixar nosso currículo mais atrativo. Quando Jesus fala sobre oração, jejum e doação, ele desaponta o ego pela forma com que o posiciona fora do radar, longe de qualquer fonte de orgulho ou auto-felicitação. Quando der esmola, "não deixe que a sua mão esquerda saiba o que a sua mão direita está fazendo", ele diz.

Não apenas não somos autorizados a barganhar pelo reconhecimento dos outros, como nem mesmo o ego que nos observa é autorizado a participar do jogo. "Segredo" é a palavra que ele usa mais de uma vez -- em Grego é "mysterion". Não extraia a prática espiritual do reino do mistério, do conhecimento que produz união onde não existem atores e não há uma audiência favorável.  

Esta negação da auto-consciência é na realidade uma forma superior de consciência.  Por mais difícil que seja para nós abandonar nossa posição na torre de controle do ego, nós de fato vemos e conhecemos muito mais quando fazemos isso. A medida da dificuldade de abandonar a auto-consciência fica evidente assim que nos sentamos para meditar e manter a nossa atenção no mantra. A medida do quão "recompensador" isso é, fica evidente pelos frutos que surgem em todos os aspectos da nossa vida de forma surpreendente e maravilhosa, como flores da primavera simples mas tão bonitas que partem o coração, brotando do solo barrento na mudança das estações.

Muitas pessoas religiosas acham que recompensa é um entendimento justo do que obtemos da prática espiritual e do exercício da virtude. Mas isso é apenas uma metáfora. Deus recompensa tanto quanto ele pune. A própria ideia de mérito que preenche as mentes de muitos Budistas, Cristãos, Hindus e Judeus é perigosa.  É uma produtização do que é espiritual, que é incomensurável, e reside apenas na confidencialidade do mistério. É difícil separar mérito de auto-satisfação.  O que nós obtemos, então, da observância da Quaresma e da nossa prática diária é a simplicidade. Não existe um fim para a simplicidade e então ela não é uma meta a ser atingida. Em um certo ponto o desejo de ser simples se dissipa e nós somente nos tornamos verdadeiramente simples quando nós paramos de pensar sobre isso. Tomás de Aquino pensava que "Deus é infinitamente simples". (Que alívio saber que somos criados, redimidos e amados por um Deus assim). 

O significado da nossa prática é que nos tornamos como Deus, simples (ao nos tornarmos como Jesus). O ego fica preocupado com isso no início pois ele quer ser como as celebridades no Oscar ou como os ícones do sucesso aplaudidos pela mídia. Mas o ego, como uma criança mimada, pode aprender a crescer. Nós aprendemos que a simplicidade acontece por meio do processo difícil mas necessário de desilusão. 

Quando dizemos "Me sinto desiludido" ou "as pessoas estão desiludidas com política, religião, jornalistas, banqueiros...", parece triste e desapontador. Nós precisamos pensar sobre o que isso significa para que possamos dizer, "Oba! Estou desiludido."

 


 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week One

What do we get out of spiritual practice? Not much, hopefully, that we can turn into cash or use to make our CV more enticing. When Jesus speaks about prayer, fasting and almsgiving, he disappoints the ego by the way he places it off the radar, away from any source of pride or self-congratulation. ‘Do not let your left hand know what your right hand is doing’, when you give alms, he says. Not only are we not allowed to bargain for recognition by others, even the self-observing ego isn’t allowed into the game. ‘Secret’ is the word he uses more than once – in Greek it’s ‘mysterion’. Don’t extract spiritual practice from the realm of mystery, of unitive knowledge where there are no actors and no appreciative audience.

This un-self-consciousness is in reality a higher form of consciousness. Hard though it may be for us to give up our position in the control tower of the ego, we actually see and know much more when we do so. Just how hard it is to let go of self-consciousness is evident as soon as we sit to meditate and keep our attention on the mantra. Just how ‘rewarding’ this is, is evident from the fruits that pop up all over our life surprisingly and wonderfully, like simple but heart-breakingly beautiful spring flowers emerging from the barren ground in the change of seasons.

Many religious people think that reward is a fair understanding of what we get from spiritual practice and the exercise of virtue. But it is only a metaphor. God no more rewards than He punishes. The very idea of merit that fills the minds of many Buddhists, Christians, Hindus and Jews is dodgy. It is a commodification of what is spiritual, that is immeasurable, and resides only in the secrecy of mystery. Merit is hard to separate from self-satisfaction. What we get, then, from Lenten observance and our daily practice is simplicity. There is no end to simplicity and so it is not a goal to achieve. At a certain point the desire to be simple dissipates and we only become truly simple when we stop thinking about it. Thomas Aquinas thought that ‘God is infinitely simple’. (What a relief to know we are created, redeemed and loved by a God like this).

The meaning of our practice is that we become like God, simple, (by becoming like Jesus). The ego is wary of this at first as it only wants to be like the glitterati at the Oscars or the successful icons enthroned in the media. But the ego, like a greedy child, can learn to grow up. We learn that simplicity happens through the hard but necessary process of dis-illusionment.

When we say ‘I feel disillusioned’ or ‘people are disillusioned with politics, religion, journalists, bankers..’, it sounds sad and disappointing. We have to think about what it means so we can say, ‘hooray, I am disillusioned.’

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.