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Reflexões da Quaresma

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Segunda-feira da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

O colapso (burnout) é mais do que um esgotamento. Pode parecer que você continua a funcionar mas, por dentro, está fechado e em fuga, emocionalmente isolado, sem qualquer sentido de alegria ou significado, e seus movimentos são apenas mecânicos. Apagou-se a luz da vida, que brilha nos olhos, ilumina a conversa com brincadeiras e destaca os matizes e as cores do mundo. Você encara o mundo, em vez de contemplá-lo. Suas trocas com outras pessoas tornam-se informativas em vez de criativas. E o mundo vai ficando cada vez mais saturado com um único tom de cinza.

A Quaresma é um tempo para procurar quaisquer sintomas de colapso. Eles podem se revelar em padrões de irritabilidade e de retirar-se do contato com os outros, em uma falsa solidão. A verdadeira solidão renova nossos relacionamentos. Ela nos ajuda a ver se alguns de nossos relacionamentos são realmente uma perda de tempo recíproca, em que usamos uns aos outros para evitar descer a níveis mais profundos. Mas na verdadeira solidão, onde estamos expostos à nossa singularidade misteriosa e não fugimos dela, vemos nossas conexões com os outros tornarem-se mais significativas e mutuamente abertas ao aprofundamento. A meditação é essa verdadeira solidão.

As práticas da Quaresma - renunciar, desprender-se e orar mais a sério - são a maneira como pesquisamos os sintomas de colapso, de vazamento de fé e de cansaço da vida. Elas limpam a mente, reescrevendo os antigos padrões mentais, e intuitivamente capacitando-nos com o auto-conhecimento do qual precisamos para continuar agindo interiormente, e não apenas fingindo que o fazemos. É um paradoxo do equilíbrio e do bem-estar humanos o fato de o desapego e o compromisso andarem de mãos dadas.

Se não soubermos dar um passo atrás, abrindo a nossa mão que agarra,  e se não nos  desapegarmos, como criar tempo para a oração, para ficar off-line, logo perceberemos que algo está torto em nossa vida e em nossos relacionamentos. Na verdade. isso indica algo errado em nós mesmos, mas, como de costume, primeiro culpamos os outros, o destino ou Deus. Estamos, de fato, lentamente perdendo a sintonia com o espírito que dá à vida sua capacidade de crescimento e transcendência. Sem isso, a experiência em si mesma - em absolutamente tudo em que se  está empenhado - começa a implodir e a desconstruir-se. A reciprocidade vital do ser desmorona em um estado autônomo, e auto-referente.

Jesus disse aos seus discípulos – ou seja, todos aqueles que pudessem ouvir - que o caminho de volta do colapso, depressão, da meia-vida é restaurar na vida a reciprocidade. Seja compassivo como seu Pai é compassivo. Não julguem, e vocês não serão julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoem, e vocês serão perdoados. Dai, e recebereis presentes, e boa medida recalcada e transbordante será derramada em vosso regaço, porque a quantidade que você dá é a mesma quantidade que você receberá de volta. 

Dar e receber tornam-se então um único ritmo. Passamos da política do medo, da segregação e do ódio para uma sociedade de partilha, uma comunidade que gosta de ser humana, uma vida que transborda. 

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Two

Burnout is more than a breakdown. You can appear to continue to function but inside you are shutting down and bailing out, emotionally isolated and lacking any sense of joy or meaning in the motions you are just going through. The light of life has been extinguished that shines in the eyes, illuminates conversation with playfulness and highlights the hues and colours of the world. Instead you stare at the world rather than gaze  at it. Your exchanges with other people become informational rather than creative. And the world is increasingly saturated with a single shade of grey.

Lent is a time to scan for any symptoms of burnout. They may reveal themselves in patterns of irritability and withdrawing from contact with others into a false solitude. True solitude refreshes our relationships. It helps us to see if some of our relationships are really mutual time-wasting, using each other to avoid deeper levels. But in true solitude, where we are exposed to our mysterious uniqueness and don’t run away from it, we see our connections with others becoming more meaningful and mutually open to depth. Meditation is this true solitude.

The practices of Lent – our giving up, letting go and praying more seriously – are the way we scan for burnout, a leaking of faith and a tiredness with life. They clear the mind by rewriting old mental patterns, intuitively empowering us with the self-knowledge we need to keep playing interiorly, not just pretending to. It is a paradox of human balance and well-being that detachment and engagement go hand in hand. 

If we don’t know how to step back, to open our clasping hand and let go, how to make time for prayer, for going off-line, we soon experience that something is going wonky with our life and relationships. In fact it is something going wrong in ourselves but, as usual, we first blame others, fate or God. We are, in fact, slowly slipping off the wavelength of the spirit that gives life its capacity for growth and transcendence. Without these, experience itself  - in absolutely everything we are engaged in – begins to implode and deconstruct. The vital reciprocity of being collapses into an autonomous, self-centred state.

Jesus told his disciples – which means all those who could listen – that the way back from burnout, depression, half-life is to restore the reciprocity to life. Be compassionate as your Father is compassionate. Do not judge, and you will not be judged yourselves; do not condemn, and you will not be condemned yourselves; grant pardon, and you will be pardoned. Give, and there will be gifts for you: a full measure, pressed down, shaken together, and running over, will be poured into your lap; because the amount you measure out is the amount you will be given back.

Giving and receiving then become a single rhythm. We pass beyond the politics of fear, segregation and hatred into a sharing society, a community that enjoys being human, a life that overflows.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.