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Reflexões da Quaresma

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Terça-feira da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

O progresso é uma ilusão interessante que a Quaresma nos convida a revisitar. Esperar que tenhamos realmente aprendido uma lição com a vida ou atingido o objetivo a muito tempo desejado é muito sedutor. Nós temos a tendência de achar que assim que as coisas mudam na superfície, esta mesma mudança também encontra uma forma de mudar tudo que está mais profundo. E então ficamos surpresos e desapontados ao descobrir que não é o caso. Velhos padrões muitas vezes retornam, às vezes com uma vingança. 

Depois de longos períodos de perseguição, a igreja Cristã, no quarto século, deve ter achado que Deus tinha deixado que ela ganhasse na loteria quando o Imperador de Roma anunciou a sua conversão. Constantino viu o deus Cristão como um aliado poderoso em suas políticas domésticas e militares. Ele não tinha nenhum interesse espiritual em sua nova fé. Mas parecia para as congregações pequenas, dispersas, marginalizadas do império que o grande exorcismo da Cruz tinha finalmente chegado às esferas mais altas do poder. Conforme as igrejas se multiplicavam em números, a fé delas era diluída. Não passou muito tempo até que, quando possível, os líderes Cristãos usaram a sua força para destruir templos e decapitar as cabeças e as pernas das estátuas dos deuses antigos, com toda a intolerância do Talibã hoje ou dos reformadores Puritanos do século 16. Os pagãos não foram martirizados porque ainda eram numerosos e dispersos, mas os líderes Cristãos ridicularizavam as suas crenças e os seus rituais. Nós não somos muito agradáveis quando temos certeza de que estamos certos e ainda menos quando achamos que vencemos.  

Esta maré de arrogância e desrespeito, porém, também impulsionou uma forma diferente de Cristianismo exemplificado no movimento monástico do deserto. Aqui Cristãos vieram viver o mistério de Cristo na forma mais profunda e humilde. Mesmo em seus leitos de morte, os velhos mestres do deserto lembraram aos seus discípulos que as batalhas internas com os seus próprios demônios e especialmente o demônio do orgulho e do auto-engano era o que importava. E esta batalha continuou, para todos nós, até o fim. Até mesmo Jesus lutou com o demônio do medo na sua última noite. 

A Quaresma nos torna humildes desta maneira. Ela é mais efetiva quando o que nos torna humildes é algo pequeno e trivial. É preciso apenas um repentino desejo por algo que você abandonou durante este período, ou o surto de apego por algo que você deixou para trás ontem ou a dificuldade de sentar durante toda a meditação da noite, para que nós nos deparemos com um obstáculo.  Conforme as ilusões costuradas em si mesmas com as quais nos vestimos começam a dissipar, ficamos envergonhados em descobrir que estamos nus e em descobirir que não parecemos tão bonitos nus em comparação a quando estamos vestidos. Nós vemos que o progresso não é eterno, nem linear como pensamos. Talvez o real progresso seja descobrir isso.

 


 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week Two

Progress is an interesting illusion which Lent invites us to revisit. Hope that we have really learned a lesson from life or achieved a long-sought objective is very seductive. We tend to assume that as soon as things change on the surface, the same change has thoroughly worked its way all the way down. And then we are surprised and disappointed to discover that is not the case. Old patterns often return, sometimes with a vengeance.

After long periods of persecution the Christian church, in the fourth century, must have felt God had let it win the lottery when the Emperor of Rome announced his conversion. Constantine saw the Christian god as a powerful ally in his domestic and military policies. He had no spiritual interest in his new faith. But it seemed to the small, scattered, marginalized  congregations of the empire that the great exorcism of the Cross had eventually spread to the highest realms of power. As the churches swelled in numbers their faith was diluted. Before long, whenever possible, Christian leaders used their upper hand to destroy the temples and chop off the heads and legs of their statues of the old gods, with all the intolerance of the Taliban today or the Puritan reformers of the sixteenth century. They did not martyr the pagans because they were still numerous and widespread, but the Christian leaders ridiculed their beliefs and outlawed their rituals. We are not very pleasant when we are so sure we are right and even less so when we think we have won.

This tide of arrogance and disrespect, however, also called forth a different kind of Christianity exemplified in the monastic movement of the desert. Here Christians came to live the mystery of Christ in the deepest and most humble personal way. Even on their deathbed, the old teachers of the desert reminded their disciples that the inner struggle with one’s own demons and especially the demon of pride and self-deception was what mattered. And that struggle continued, for us all, to the end. Even Jesus struggled with the demon of fear on his last night.

Lent humbles us in this way. It is most effective when what humbles is something small and trivial. It only takes a sudden craving for what you gave up, or the surge of attachment for what you had let go of yesterday or a struggle to sit through the whole evening meditation, for us to land with a bump. As the self-woven illusions with which we clothe ourselves unravel, we are embarrassed to discover we are naked and that we don’t look as good naked as we do when we are dressed up. We see that progress isn’t forever, nor is it as linear as we thought. Perhaps the real progress is in discovering this.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.