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Reflexões da Quaresma

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Quarta-feira da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Shakespeare não desperdiçava a própria energia inventando histórias. Os enredos de suas peças já se encontravam nas prateleiras de sua biblioteca. Ele só precisava lê-los e transformá-los completamente por meio do poder de sua criativa imaginação, elevando velhos contos e novelas ao reino das atemporais e inesquecíveis reflexões acerca da natureza e do infinito, tonalidades interativas do caráter humano. Em uma cena ele conseguia mostrar como diversas personalidades reagem diferentemente a eventos iguais. Ele também era um empresário do Teatro e um sagaz investidor e, assim que amealhou o suficiente para se aposentar na obscuridade de sua cidade natal, ele o fez. Tal como Bach, ele se tornou um gênio incomparável por ser predominantemente comum, aperfeiçoando constantemente sua arte, fiel a seu dom, e mantendo os pés no chão. 

Nem todos temos esse talento. Mas, todos temos o gênio da santidade em nossa capacidade para a plenitude. A Quaresma é um tempo para sermos discretos, sem dramatizações nem chamarizes. Nesses dias focalizamos pequenos detalhes e rotinas de nossa observância para ver o que nos ensinam à medida que esfregam um pouco da sujeira acumulada pelos maus hábitos, e sopram a poeira da indolência.

Durante a Quaresma o ego passa por um serviço de manutenção. Fazemos nele uma revisão de desempenho, recomendando-lhe um melhor comportamento. A princípio ele não gosta disso e, passados alguns dias, quando o brilho na novidade se desgasta, ele passa a ficar inquieto e procura maneiras de se auto-afirmar. Ele pode fazê-lo em manifestações antes do amanhecer que nos causam embaraço à luz do dia, ou durante o dia quando quer “subir ao palco”. A fidelidade à prática minará facilmente essas velhas e vulgares tentativas de ser original.

A originalidade não é algo que possamos fabricar. O ego gosta de se evidenciar e de ser aplaudido, até mesmo por si próprio, caso a audiência não o faça. Mas, se tentamos fabricar originalidade nos apresentamos como sendo de categoria inferior. Originalidade, criatividade, a bondade e plenitude a que damos o nome de santidade, precisam acontecer por si, tomando a todos de surpresa, inclusive a nós mesmos. No primeiro dia da Quaresma Jesus nos lembrou de não sermos auto-conscientes, de voltarmos nossa atenção para fora de nós mesmos. Conseguiremos imaginar quão surpresos ou humildes Shakespeare e Bach devem ter se sentido ao escrever a primeira linha ou nota de uma nova obra-prima? Por também serem pessoas comuns eles devem ter sentido uma pequena onda de autossatisfação antes de perceber a chegada do próximo tsunami de sua imaginação.

A Quaresma nos ajuda a recuperar nossa inocência original. Renova nossa capacidade de nos surpreendermos e vivermos o sempre extraordinário presente. Nos permite ver que nossa vida é uma obra de arte e, a nossa maneira de dar vida ao nosso gênio. Essa é a razão de podermos pensar no mantra como uma contínua Quaresma.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent Week Two

Shakespeare didn’t waste his energy inventing stories. The plots of his plays were already on his bookshelves. He had only to read them and by the power of his creative imagination to utterly transform them, lifting old tales and soap operas into the realm of timeless and unforgettable reflections of nature and the infinite, interactive shades of human character. In one scene he can show how a number of personalities respond differently to the same events. He was also a theatrical businessman and shrewd investor and when he had made enough to retire into obscurity in his hometown he did. Like Bach, he became an incomparable genius by being rather ordinary, always perfecting his craft, faithful to his gift, and keeping his feet on the ground.

We don’t all have this kind of talent. But we all have the genius of holiness in our capacity for wholeness. Lent is a time for being rather low key, undramatic and unflashy. These days, we focus on the small details and routines of our observance and see what they are teaching us as they rub away a little of the accumulated grime of bad habits and blow off the dust of laziness.

The ego is being serviced during Lent. We give it a performance review and tell it to behave better. It doesn’t like this at first and after a few days, when the glitter of novelty wears off, it gets fidgety and looks for ways to assert itself. It may do this in predawn tweets that embarrass us in the light of day or during the day when it wants to grandstand. Fidelity to the practice will easily undermine these hackneyed old attempts to be original.

Originality is not something we can manufacture. The ego likes to stand out in front and be applauded, even by itself if the audience won’t. But if we try to fabricate originality we are shown up as third-rate. Originality, creativity, the goodness and wholeness we call sanctity, has to happen by itself and take everyone, ourselves included, by surprise. Jesus reminded us on the first day of Lent, not to be self-conscious, to take the attention off ourselves. Can we imagine how surprised and humbled Shakespeare or Bach must have felt when they wrote the last line or note of a new masterpiece? Because they were also ordinary they must have felt a ripple of self-satisfaction before sensing the next tidal wave of their imagination arriving. 

Lent helps us recover our original innocence. It refreshes our capacity to be surprised and to live in the ever-amazing present. It makes us see that our life is a work of art and our way of living it our genius. That is why we can think of the mantra as a continuous Lent.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.