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Reflexões da Quaresma

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Quinta-feira da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

A Quaresma nos dá o ensejo de ver a vida como algo mais do que batalhar, mais do que uma sequência infinita de resolução de problemas. Sob estresse, muitas vezes é assim que pode parecer, pois o tempo encolhe, a energia é dissipada em rajadas curtas de atenção imperfeita, e um sentimento de fracasso e de faltar a um compromisso importante se torna mais forte a cada dia. Não é de admirar que o esgotamento seja um problema tão grande em tantas carreiras hoje em dia.

Se pensarmos na vida como uma série exponencial de problemas clamando por nossa decrescente atenção, estamos caminhando na direção errada. Um ditado chinês de sabedoria incrivelmente óbvia diz ‘Se você continuar na direção que está indo, você vai chegar onde está indo’. Em outras palavras, arrepender-se e crer na boa nova: ou então ultrapassar a borda do penhasco. O arrependimento é uma mudança de direção, salvando-nos do desastre.

Ao invés de ver a vida como incrivelmente problemática, por que não vê-la como artística? Os três pilares da Quaresma que vimos são formas de desenvolver a arte de viver, para o resto de nossa vida, bem como nesta época especial, de simplificação e foco. O resultado de qualquer arte é a beleza.

‘Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova. Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora. E ataquei as coisas belas que criaste’. Santo Agostinho descreve sua grande reviravolta como uma descoberta da natureza da beleza. Como Dostoiévski, ele sentia a beleza como uma salvação pessoal. Mas diante do caos violento de seu tempo, o místico russo disse mais: o mundo será salvo pela beleza.

Não tecnologia, não ideologia, não política, não poder ou crescimento econômico, mas beleza. Não significa apenas beleza estética, arte, música ou poesia. Nem apenas a beleza do mundo natural, que tanto encanta e delicia o artista e o místico, mas que permanece invisível para aqueles cuja interioridade foi, como Agostinho antes de sua conversão, desligada.

A beleza é a erupção do todo numa parte. Quebra as regras. É excepcional. Pode acontecer em um poema ou uma peça musical, em um belo rosto ou voz, mas igualmente em um gesto ou uma ação moral que nos surpreende e delicia e nos faz dizer ‘uau, que bela (e inesperada) atitude’. Ficamos impressionados com a beleza porque ela não pode ser fabricada, apenas criada, e a criação é a fonte da maravilha.

O mais urgente problema que temos de resolver é a falta de percepção.Nossa percepção da beleza na arte, na natureza ou no comportamento humano depende de termos descoberto nossa própria beleza e bondade. Se não vemos que somos bonitos, não podemos ver a beleza de uma floresta tropical, a música que combina conosco, ou a humanidade heróica daqueles que perdoam e mostram compaixão sem outra razão senão que esta é a coisa certa e natural a fazer.

A meditação é uma Quaresma contínua porque limpa constantemente as portas da percepção, abrindo-nos a este nível essencial de beleza. É conhecer a nós mesmos, não apenas como partes do todo, mas como manifestação do todo.

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week Two

Lent gives us the opportunity to see life as more than coping, more than an endless sequence of problem-solving. Under stress, that is often how it can seem, because time contracts, energy is dissipated in short bursts of imperfect attention and a feeling of failure and missing an important appointment grows stronger every day. No wonder burnout is such an issue in so many walks of life today.

If we think of life as an exponential series of problems clamouring for our diminishing attention we are heading in the wrong direction. A Chinese saying of staggeringly obvious wisdom says ‘if you keep going in the direction you are going, you will arrive where you are going.’ In other words, repent and believe the good news: or else go over the edge of the cliff. Repentance is a change of direction, saving ourselves from disaster. 

Instead of seeing life as impossibly problematical, why not see it as artistic? The three pillars of Lent we have looked at are ways of developing the art of living, for the rest of our life as well as this special season of simplification and focus. The outcome of any art is beauty. 

‘Late have I loved thee, Beauty so ancient and so new. Behold, you were within but I was on the outside, looking for you. And I pounced on the beautiful things you had made.’ St Augustine’s describes his great turn around as a discovery of the nature of beauty. Like Dostoevsky, he felt beauty as a personal salvation. But facing the violent chaos of his time the Russian mystic said more: the world will be saved by beauty.

Not technology, not ideology, not politics, not power or economic growth, but beauty. This cannot mean only aesthetic beauty, art, music or poetry. Nor just the beauty of the natural world that so entrances and delights the artist and the mystic but remains invisible to those whose interiority has, like Augustine’s before his conversion, been shut down. 

Beauty is the breaking out of the whole in a part. It breaks the rules. It is exceptional. It can happen in a poem or a piece of music, in a beautiful face or voice, but equally in a gesture or a moral act which astounds and delights us and makes us say ‘wow, what a beautiful (and unexpected) thing to do’. We are wowed by beauty because it cannot be manufactured, only created and creation is the source of wonder.

The most urgent problem we must solve is a lack of perception. Our perception of beauty in art, nature or human behavior depends upon our having discovered our own beauty and goodness. If we do not see that we are beautiful we cannot see the beauty of a rain forest, music that becomes us when we listen to it or the heroic humanity of those who forgive and show compassion for no reason other than that this is the right and natural thing to do. 

Meditation is a continuous Lent because it constantly cleanses the doors of perception, opening us to this primary level of beauty. This is knowing ourselves, not just as parts of the whole, but as a manifestation of the whole.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.