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Reflexões da Quaresma

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Segunda-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Uma das graças que a Quaresma nos dá é a oportunidade de crescermos em auto-conhecimento através de um exercício de vontade relativamente pouco arriscado. Há duas semanas, por exemplo, você decidiu renunciar a algo, desapegar-se  de algo e rezar mais, ou fazê-lo com mais fidelidade. Se você é um fuzileiro naval não terá dificuldade em manter este regime. Se não for, pode ter uma vontade mais ou menos bem treinada. Pode, portanto, já ter vacilado ou abandonado os propósitos. Como você lida com isso é que vai lhe abrir a oportunidade para o auto-conhecimento mais profundo.

Provavelmente, não é a maior crise moral de sua vida se você decidir, em um momento de fraqueza, tomar um copo de vinho, pedir uma sobremesa, ou deixar de lado sua leitura diária da Quaresma - se algum desses foi o exercício ascético que escolheu. O que importa é como você lida com o fracasso da vontade, e se você decide começar de novo.

Um jovem meditante, que tem uma abordagem muito moderna (e saudável, livre de culpa) à disciplina, ilustrou isso para mim. Ele acredita firmemente na meditação, e sabe como isso o ajuda em todos os níveis; e ele vê como, pela  disciplina diária, a graça edifica silenciosamente sobre a natureza. Fiquei surpreso quando ele me disse que tinha parado por uma semana. Eu perguntei por quê. Disse-me ele  que havia lutado com sua meditação porque não podia se livrar das próprias expectativas e exigências, e do auto-exame de seu progresso. Isso o prendia e arrastava. Ele sabia que deveria largar tudo, mas não conseguia. Ele sabia que a meditação tem a ver com o desapego, e, então,  decidiu praticar o desapego da meditação - por uma semana. Ele achou que esta era uma ideia legal e, para ele, felizmente, parece ter sido. Os padres do deserto disseram que não devemos transformar em uma paixão o caminho para libertação  das paixões.

Para começar, ele teve uma semana muito difícil sem meditação, e isso o ensinou exatamente o quanto a meditação é para ele um presente necessário e belo. Sentiu ele refluir velhos padrões de ansiedade e irritabilidade, e enfraquecer o sentimento de conexão em todas as frentes. Esse sentido de conexão é a medida do significado na vida de qualquer um. Ele surge da conexão entre nosso “eu” superficial,  e o “eu”  profundo -, da conexão com aqueles próximos a nós e, em seguida, com aqueles que encontramos como estranhos, ou mesmo como inimigos. Depois desta semana de turbulência, ele retomou sua meditação. e, como esperado, descobriu que agora a praticava com mais desapego, e com menos ansiosa avaliação dos resultados.

John Main também interrompeu a meditação em pleno fluxo, embora por razões diferentes, e por mais tempo. Ele obedecia ao seu mestre de noviços, que não entendia este modo de oração. Mas quando voltou a ele, depois de redescobrir sua própria tradição,  disse ele ter voltado à meditação “nos termos de Deus, não nos meus”.

Esses exemplos apontam para a questão do self (si-mesmo), em personalidades e circunstâncias muito específicas, e que talvez devam ser aprendidas em vez de imitadas. Esta é a questão central de qualquer caminho espiritual. Quem (realmente) sou eu? E essa pergunta é iluminada por nossa experiência de desejo e vontade que, geralmente, identificamos com a liberdade. Ser livre não é fazer o que queremos? Então, a pergunta “quem sou eu”  também quer dizer o que significa ser livre? Continuaremos a explorar esses temas durante nossa terceira semana de Quaresma.

(Se você caiu, por que simplesmente não começar de novo?)

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Three

One of the graces of Lent is the chance to grow in self-knowledge through a relatively low-risk exercising of the will. For example, you decided two weeks ago to give up something, to let go of something and to do more prayer or to do it more faithfully. If you are a marine you will have no difficulty in keeping to this regime. If you are not, you may have a more or a less well-trained will. You may therefore have already wobbled or fallen off. It is how you deal with that which will be the occasion for deeper self-knowledge. 

It is probably not the greatest moral crisis of your life if you did decide, in a weak moment, to have a glass of wine, have a dessert or miss your Lenten daily reading – if any of these were your chosen ascetical exercise. What matters is how you deal with the failure of the will and whether you start again.

A young meditator who has a very modern (and healthily guilt-free) approach to discipline illustrated this for me. He believes strongly in meditation and knows how it helps him at all levels; and he sees how, through the daily discipline, grace silently builds on nature. I was surprised then when he told me that he had quit for a week. I asked why. He said that he had struggled with his meditation because he could not get rid of his expectations and demands and self-examination of his progress. This was dragging him back. He knew he should let go of it all but he couldn’t. He knew meditation is about detachment, so he decided to practice detachment from meditation - for a week. He thought this was a cool idea and, for him fortunately, it seems to have been. The desert fathers said we should not make the way to become free of the passions into a passion.

First of all, he had a very difficult week without meditation, which taught him just what a necessary and beautiful gift meditation is for him. He felt old patterns of anxiety and irritability surge back and the sense of connection weaken on all fronts. This sense of connection is the measure of meaning in anyone’s life. It arises from the connection between our surface and deeper self, from the connection to those close to us and then to those we meet as strangers or even as enemies. After this week of turbulence he resumed his meditation and found, as he had hoped, that he could practice it now with more detachment and a less anxious measuring of results.

John Main also gave up meditation in full stream, though for different reasons and for longer. He was obeying his novice master who did not understand this way of prayer. But when he came back to it, after rediscovering of his own tradition, he said he returned to meditation ‘on God’s terms, not my own’.

These examples point to the question of the self, through very particular personalities and circumstances which are perhaps to be learned from rather than imitated. This is the central question for any spiritual path. Who (really) am I? And this question is lit up by our experience of desire and the will that we usually identify with freedom. To be free is to do what we want, surely? So, the question ‘who am I?’ also means what does it mean to be free? We will continue to explore these during our third week of Lent. 

(If you did fall away, why not just start again?)

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.