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Reflexões da Quaresma

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Terça-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Nós não podemos conhecer a Deus sem conhecer a nós mesmos. Caso contrário, Deus seria apenas o resultado com êxito de um experimento científico que estamos conduzindo, não o que Deus siginifica como a fonte, o fundamento e o objetivo de ser em si mesmo.

O mais estranho é que conhecer a nós mesmos nos leva, como vimos na primeira semana, através de vales da morte. Estes vales são as desilusões dolorosas do nosso amadurecimento. Como podemos conhecer a nós mesmos sem ficarmos envergonhados e machucados pela descoberta de que não somos o que nós (ou os outros) pensávamos ser? O resultado destas revelações dolorosas das camadas mais profundas do nosso ser é sempre positivo, no longo prazo.  Mas, por causa do sofrimento envolvido no auto-conhecimento, nós muitas vezes resistimos, negamos ou fugimos disso, às vezes por décadas. Um exemplo típico é um viciado reconhecendo e humildemente admitindo o seu problema. Mas também pode acontecer a um filantropo aclamado que lentamente percebe que ele ajuda aos outros em função da boa imagem criada por esta atividade.  

Uma razão pela qual este processo de auto-conhecimento é difícil é que ele revela os conflitos profundos, muitas vezes enterrados profundamente em nós mesmos. Cair do vagão da Quaresma (como quebrar as nossas promessas de ano novo) atinge a exposição desta divisão dentro do nosso propósito. Se o que eu sou é o que eu quero, o que acontece se tenho que admitir que quero coisas diferentes, simultaneamente e irreconciliavelmente? Esposa e amante. Tempo com a família e viagens de trabalho. Bolo de chocolate e cintura fina. Deus e o dinheiro. Netflix e a meditação da noite.  

Para o ego bem construído (uma pessoa popular ou "de sucesso" geralmente tem um), esta descoberta do eu dividido pode ser devastadora. A erupção interna, que colocou São Paulo fora de ação por alguns anos, mudou-o de perseguidor a vítima que viu uma glória transcendente que transforma a qualidade de vítima na mais alta dignidade humana e humildade.  Mesmo depois que ele já tinha começado uma nova vida e se tornado um mestre, e atingido as alturas místicas, ele sofreu do conflito visceral do desejo. O que ele queria ele não queria. O que ele não queria ele queria.  

Para ele, este despertar rude destruiu sua auto-retidão e fez com que ele enxergasse que as regras e o legalismo nunca serão suficientes. Estranhamente, é o quebrar da regra que - ao menos para o reto ou orientado pela culpa - revela o propósito da regra. Talvez seja por isso que a sabedoria de São Bento é construída em torno de uma Regra que é cheia de exceções. E então, como cantaremos no Sábado Santo, "O Felix Culpa". Oh, feliz culpa. Ou como a Madre Julian de Norwich correu o risco de dizer, "o pecado é necessário".  Esta rara palavra (nota: Fr Laurence aqui faz referência à palavra behovely que é rara em Inglês) tem um valor de apenas 19 pontos no jogo Scrabble, mas possui um significado muito mais valioso para o peregrino espiritual. Necessário, vantajoso. A etimologia combina o senso de agarrar com algo lucrativo. 

Então, se a sua Quaresma não tem sido perfeita. Se você sente que você falhou em sua disciplina ou que você falhou consistentemente em sua meditação, nem tudo está perdido. De fato, através deste senso de fracasso tudo pode ser conquistado.

 


 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week Three

We cannot know God without knowing ourselves. Otherwise, God would be only the successful result of a scientific experiment that we were conducting, not what God means as the source, ground and goal of being itself. 

The awkward thing is that the path of self-knowledge takes us (as we saw in the first week) through valleys of death. These are the painful dis-illusionments of our maturing. How can we get to know ourselves without sometimes being ashamed and hurt by discovering that we are not what we (or others) thought we were? The outcome of these painful unveilings of the deeper levels of ourself is always good, in the long run. But, because there is suffering involved in self-knowledge, we often resist, deny or evade it, maybe for decades. A typical example is an addict coming to recognise and humbly admitting his problem. But it may also happen to an acclaimed philanthropist who slowly realises he helps others mainly because of the good image of himself it gives him.

One reason that the process of self-knowledge is difficult is because it exposes the deep, often deeply buried conflicts within ourselves. Falling off the Lenten bandwagon (like breaking our promises or new year’s resolutions) achieves this exposure of a division within our will. If what I am is what I want, what happens if I have to admit that I want different things, simultaneously and irreconcilably? Wife and mistress. Family life and major business travel. Chocolate cake and a slim waist. God and mammon. Netflix and the evening meditation.

For the well-constructed ego (a ‘successful’ or popular person usually has built one), this discovery of the divided self can be devastating. The inner eruption, which put St Paul out of business for a few years, turned him from a persecutor into a victim who then saw a transcendent glory that transformed victimhood into the highest human dignity and humility. Even after he had started the new life and become a teacher of it, and touched mystical heights, he suffered from a visceral conflict of desire. What he wanted he did not want. What he did not want he wanted.

For him, this rude awakening shattered his self-righteous ego and helped him to see that rules and legalism will never lead to self-knowledge, the knowledge of God or to the freedom of the new life. Oddly enough, it is often in breaking a rule that – at least for the righteous or the guilt-ridden – the purpose of the rule is revealed. Perhaps that’s why St Benedict’s wisdom is built around a Rule that is so full of exceptions. 

As we will sing on Holy Saturday: ‘O felix culpa’. O happy fault of Adam. Or, as Mother Julian of Norwich took the risk to say, ‘sin is behovely’.  This rare word has a Scrabble value of 19 but possesses a more valuable meaning for the spiritual seeker. Necessary, advantageous. The root meaning of the word combines the sense of ‘grasping’ with ‘something profitable’.

So, if your Lent hasn’t been perfect; if you feel you have failed in your discipline or that you fail consistently in your meditation, all is not lost. Indeed through this very sense of failure all may be won.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.