Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quarta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

John Main considerava que subestimar toda a maravilha da própria fé e do próprio potencial é o persistente pecado dos cristãos. É inacreditável. Trata-se de uma fé que apresenta, para a expansão da mente, grandes perspectivas quanto à infinita capacidade da natureza humana, e quanto ao relacionamento que há entre Deus, a natureza e todo o espectro humano de ternura, alegria e sofrimento. No entanto, na antiga Cristandade do Ocidente, em larga escala, é hoje considerada enfadonha, socialmente conservadora, moralista e, preocupada demais, senão obcecada, com a sexualidade genital. Em outros campos, ela é fundamentalista de mau gosto, indelicada para com outras formas de fé, exclusiva e tão restrita intelectualmente quanto a Casa Branca. O que deu errado? E mais, poderá ser corrigida de modo a promover sua medida de esperança e de energia criativa em nossa crise moderna?

Se eu tivesse que responder sim ou não, eu diria que sim. Mas, é claro, eu não sei e, provavelmente, a pergunta assim formulada é grandiosa e abstrata demais. Neste ponto talvez necessitemos de uma abordagem contemplativa, mais do que uma que seja eclesiasticista. Gosto da distinção, por exemplo, entre os termos ‘eclesial’ e ‘eclesiaticismo’. Ambos se referem à ‘igreja’, mas com significados muito diferentes. Eclesial sugere uma consciência emergente da profundidade e do significado dentro de uma comunidade acolhedora, uma porta aberta a algo que é maior do que a soma de suas partes. Trata-se de um mundo vivo e simbólico no qual somos libertados do legalismo pela disciplina da devoção. Eclesiasticismo significa, bem, fanatismo, que as melhores pessoas religiosas concordariam ser no mínimo pouco atraente, senão realmente repulsivo. Entretanto, existe aquilo que chamamos de amor religioso e, trata-se de uma maravilhosa forma de amor a ser descoberta. Mas, não é fanático.

 O que podemos dizer se refere menos a ‘como tornar a igreja relevante’ ou ‘como fazer com que os jovens se envolvam mais’. Podemos agir a partir da verdade de que uma experiência extraordinária, ainda que universal, permanece latente em todo ser humano. Mesmo que não haja palavras para descrevê-la essa experiência pode ser despertada para nos mostrar a cada um de nós a maravilha e a profundidade da fé cristã. Por exemplo, a paz. Essa paz de que nos falam as escrituras o tempo todo, está aí. Ou, a alegria. Alegria é uma fonte interior a ser explorada, muito além dos templos do consumismo. Caso nos focalizássemos mais no despertar dessa experiência se desdobraria o significado e a forma futura da igreja e, não estaríamos apenas contando o número de vagabundos sentados nos bancos.

Mas, de fato, não podemos despertar essa experiência para os outros. Esse é o erro em colocar toda a ênfase no ‘frequentar a igreja’. Frequentar a maioria das igrejas faz sentido como uma resposta a essa experiência, mais do que um caminho para encontrá-la. Mesmo que, caso tenha sorte, você possa encontrar uma igreja com uma boa e amorosa comunidade que ajuda uma grande gama de pessoas a encontrar essa experiência por elas mesmas e juntas.

Não tenho certeza quanto ao que isso tem a ver especificamente com a Quaresma. Pensarei em uma conexão para amanhã. A não ser que uma das expressões menos fanáticas do Cristianismo foi aquela dos padres do deserto. Eles viviam e respiravam a Quaresma cotidianamente com alegria, compaixão e inteligência espiritual. E, conforme as palavras de Jesus, é aí que a sabedoria da meditação flui mais poderosamente para a via cristã da vida de fé.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent week Four

John Main thought that the besetting sin of Christians was to underestimate the full wonder of their faith and potential. It is incredible. This is a faith that presents such mind-expanding perspectives about the infinite capacity of human nature and about the relationship between God, nature and the whole human spectrum of tenderness, joy and suffering. Yet in the old Christendom of the West it is now largely seen as dull, socially conservative, moralistic and over-concerned, if not obsessed, with genital sexuality. In other areas, it is distastefully fundamentalist, impolite to other faiths, exclusive and as intellectually restricted as the White House. What went wrong? And, can it be turned around to bring its measure of hope and creative energy to our modern crisis?

If I had to say yes or no I’d say yes. But, of course, I don’t know and the question in this form is probably too grand and abstract. Perhaps at this stage we need a contemplative rather than an ecclesiastical approach. I like the distinction, for example, between ‘ecclesial’ and ecclesiastical’. Both refer to the ‘church’ but with quite different meanings. Ecclesial suggests an emergent awareness of depth and meaning within a welcoming community opening access to something greater than the sum of its parts. It is a living, symbolic world in which we are freed from legalism by the discipline of worship. Ecclesiastical means, well , churchy, which the best religious people would agree is at least unattractive if not actually repellent. Nevertheless, there is  such a thing as religious love and it is a wonderful form of love to discover. But it is not churchy.

What we can say is less about ‘how to make the church relevant’ or ‘how to get young people more involved’. We can act from and on the truth that an extraordinary yet universal experience remains latent in every human being. Even without words to explain it,  this experience can be awakened to show each of us the wonder and depth of what Christian faith is all about. For example, peace. This peace that the scriptures speak about all the time is there. Or joy. Joy is an inner spring waiting to be untapped, way beyond the temples of consumerism. If we focused more on awakening this experience the future shape and meaning of the church would unfold and we wouldn’t just be counting the numbers of bums on pews. 

In fact, though, we can’t awaken this experience for others. That is the mistake of putting all the emphasis on ‘going to church’. Going to most churches makes sense as a response to this experience rather than as a way of finding it. Although, if you’re lucky, you may find a church with a good and loving community that helps a wide range of people to find this experience for themselves and together. 

I’m not sure what this has got to do specifically with Lent. I’ll think of a connection for tomorrow. Except that one of the least churchy expressions of Christianity was that of the early desert monks. They lived and breathed Lent daily with joy, compassion and spiritual intelligence. And, after the words of Jesus, that’s where the wisdom of meditation most powerfully flows into the Christian way of faithful living.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.