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Reflexões da Quaresma

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Sábado da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Dá até para apostar que a qualquer hora que liguemos a televisão para ver as notícias veremos atrocidades, tragédias, um acidente horrível ou um crime que reflete a pior mutação da natureza humana. A Irlanda, eu noto, é particularmente afeiçoada ao noticiário diário sobre acidentes de carros e assassinatos. Essas coisas acontecem e não deveríamos negá-las. Mas se somos expostos a elas tão desproporcionalmente na mídia deve ser, ou porque a mídia está tentando nos colocar em depressão, ou porque de alguma forma nós nos satisfazemos ou nos estimulamos ao escutá-las. As pequenas informações de boas notícias que nos são lançadas no final da transmissão apenas destacam a melancolia generalizada da existência nesse planeta.

É difícil responder à pergunta, frequentemente feita por alguém que você não vê há algum tempo, ‘e aí o que tem acontecido em sua vida?’. Você começa a analisar ponto por ponto e se sente perdido. Como, e o que selecionar do fluxo de eventos e impressões? Quão realmente interessado estaria seu interlocutor em ouvir uma resposta que tenta representar a diversidade de acontecimentos, ou qualquer coisa além da costumeira resposta evasiva, ‘está tudo bom, tudo bem, obrigado’.  

É fácil sentir que somente grandes coisas e acontecimentos dramáticos (bons ou ruins) valem ser comentados. Há algo aí, de fato, uma vez que falar das minúcias e trivialidades ou das pequenas coisas que deram errado pode ser entediante. ‘Bem, ontem eu estava preparando uma xícara de chá e liguei a chaleira. Levou séculos para ferver e então percebi que não tinha fechado a tampa da chaleira direito. Ela tem um novo mecanismo de segurança que não permite que a chaleira funcione a não ser que esteja hermeticamente fechada’. Mesmo dizendo ‘que incrível’ isso não fará com que o relato seja interessante. O tédio é realmente uma má notícia. 

Nós também podemos, no entanto, experimentar significado libertador, a beleza e a maravilha em alguma coisa geralmente considerada aborrecida e comum. Aí está realmente uma boa notícia. Se você foi realmente tocado por uma mudança no tempo, por exemplo, mais do que ver nisso um sinal de quão desinteressante é sua vida, as pessoas ficarão gratas a você por compartilhar tal descoberta. O poeta Inglês George Herbert nos mostra isso em seu grande poema A Flor:

E agora em idade avançada eu desabrocho novamente,
Depois de tantas mortes vivo e escrevo;
Uma vez mais sinto o cheiro do orvalho e da chuva,
E sinto prazer em versejar.

Esse é o tipo de notícia profunda encontrada também nas grandes Escrituras. O que é incrível é como pessoas religiosas podem ser maçantes de posse de tais tesouros. Mesmo se, por exemplo, ela aconteça de estar envolvida, como no evangelho de amanhã, num milagre de cura, não é somente a cura que é interessante. É como a experiência de vida da pessoa curada é modificada e o que ela faz com o pouco tempo extra para viver que isso lhes dá para ver a dimensão de profundidade daquilo que é comum.

A Quaresma deveria nos sintonizar com esse tipo de notícia profunda que realmente nos renova.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Four

It’s a good bet that any time we turn on the news we will hear of an atrocity, a tragedy, a horrible accident or a crime that reflects the worst mutation of human nature. Ireland, I notice, is particularly fond in the daily news of car crashes and murders. These things happen and we should not be in denial about them. But if we are exposed to them so disproportionately in the media it must be either because the media are trying to depress us or because we derive some satisfaction or stimulation by hearing about them. The little scraps of good news items we are thrown at the end of the broadcast only highlight the overall gloom of existence on this planet.

It is hard to respond to the question, often asked by someone you haven’t met for a while, ‘so what’s been happening in your life?’. You start scanning and feel helpless. How and what do you select from the flow of events and impressions? How really interested would your questioner be in an answer that tries to represent the diversity of happenings, or in anything more than the usual evasive answer, ‘everything’s good, fine, thank you’.

It’s easy to feel that only big things and dramatic outcomes (good or bad) are worth talking about. There’s something in this, in fact, as talking of minutiae and trivialities or the small things that went wrong can be boring. ‘Well, yesterday I was making a cup of tea and turned on the kettle. It took ages to boil and then I realised I hadn’t shut the lid of the kettle properly. It has a new failsafe mechanism that won’t let the kettle work unless it’s tightly closed. Even saying ‘amazing’ won’t make that interesting. Boring is the really bad news.

We can also, however, experience liberating meaning, beauty and wonder in something generally deemed dull and ordinary. This is really good news. If you have been genuinely moved by a change in the weather, for example,  rather than seeing it as a sign of how uninteresting your life is, people will be grateful for you sharing such a discovery. The very English poet George Herbert shows this in his great poem The Flower:

And now in age I bud again, 
After so many deaths I live and write; 
I once more smell the dew and rain, 
And relish versing

This is the kind of deep news found also in the great scriptures. What is amazing is how dull religious people can be in possession of such a treasure. Even if, for example, it happens to be wrapped, as in tomorrow’s gospel, in a miracle of healing, it’s not just the cure that is interesting. It’s how the cured person’s experience of life is changed and what they  do with the little extra time for living it gives them to see the depth dimension of the ordinary. 

Lent should be attuning us to this kind of deep news that really makes us new.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.