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Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinto Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quinto Domingo da Quaresma 2017

Hoje os fiéis terão outro longo sermão para ouvir de pé. A história da cura de Lázaro segundo João (11, 11-45) requer que se esteja sentado para apreciar a riqueza de todos os seus aspectos. É a descrição da morte súbita de um amigo muito querido de Jesus, que compartilha do sofrimento das duas irmãs dele, a ativa Marta e a contemplativa Maria.

O relato mostra Jesus como o mais poderosos e o mais humanamente vulnerável. Ele é visceralmente tomado pela dor da perda, de uma profundidade indescritível em palavras. O relato nos dá conta de que ele deu um suspiro do fundo de seu coração. O que conseguimos dizer diante da perda de alguém que amamos? Não sabemos se este alguém desapareceu ou se penetrou num profundo nível da realidade no qual ainda estamos embrutecidos e não-iluminados demais para penetrar. A sensação de ter sido deixado para trás evoca níveis contínuos da memória pré-consciente. O suspiro sem palavras expressa a dor da ausência que induz às lágrimas. E nos é revelado, no menor dos versos completos dos quatro Evangelhos, que “Jesus chorou”*.

Algumas pessoas incluem estas duas palavras poderosas no repertório das menores blasfêmias que caracterizam sua fala quando estão dirigindo ou deletando um email por enagano. É compreensível que seja ofensivo para os piedosos, mas também pode ser vista como uma invocação, embora incosciente, da empatia de Jesus pelo sofrimento humano. Sentimos que as lágrimas de Jesus por Lázaro surgem não apenas da angústia pessoal que ele sentiu diante da perda de alguém que amava, mas também da sua plena imersão no oceano do sofrimento humano. Quando sofremos de dor, sofremos com todos aqueles que também estão sofrendo ou que já sentiram esta dor, através das dimensões de tempo e espaço.

Quando Aeneas olha atentamente para um mural representando cenas de guerra e da morte de amigos ele é levado a dizer “Há lágrimas nas coisas e coisas mortais tocam a mente”. As lágrimas das coisas. Nossa humanidade é diminuída se não conseguimos sentir e honrar o sofrimento, quando e onde quer que o encontremos. Talvez seja por isso que apreciamos as más notícias, que nos fazem perceber que ainda podemos sentir, mesmo nesta cultura de mídia plena de estímulos e distrações.

A empatia ou compaixão faz parte das notícias profundas escondidas no dia-a-dia, sejam notícias boas ou ruins. As lágrimas são uma onda de energia que traz a cura e uma nova vida. Depois de penetrar no silêncio da profunda compaixão, Jesus chama numa voz alta e forte:

“Lázaro, aqui! Venha para fora” O falecido sai, com os pés e mãos atados e um pano sobre o rosto. Jesus diz para os outros: “Desatai-o e deixai-o livre.”

As lágrimas provam que nossa atenção é real. A atenção mantida cura; regenera o que está morto; aquece o que está frio. E repõe as cores no que havia se tornado um cinza sem vida.

(*) em inglês, Jesus cried ou Jesus cryes é uma blasfêmia, expressão de raiva.

 

Quaresma 2017

Estas leituras diárias, escritas por Laurence Freeman, um monge beneditino e diretor da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, servem como ajuda para termos uma melhor Quaresma. Este é um tempo definido de preparação para a Páscoa, durante o qual uma atenção especial é dada para a oração, maior generosidade  com os outros e o auto-controle.

É um costume abrir mão de algo, ou restringir o uso de alguma coisa durante a Quaresma mas também fazer algo adicional que beneficiará a sua espiritualidade e o tornará mais simples.  A leitura destas reflexões proverá coragem para que se torne a meditação uma prática diária ou, se já é, que se aprofunde a prática, preparando-se para os momentos de meditação com mais cuidado. As meditações da manhã e da noite se tornam então os centros espirituais de seu dia. Esta é a tradição, um modo muito simples de meditação, que nós ensinamos: 

Sente-se com a coluna ereta em quietude. 

Feche seus olhos levemente. 

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta. 

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha". 

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente. 

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual. 

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra. 

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.

Meditar com outros, em um grupo semanal, ajuda bastante a desenvolver a prática em sua vida diária.

 


 

Texto original em inglês

Fifth Sunday of Lent

Churchgoers today have another long gospel to stand through. The story of the healing of Lazarus in John (11:1-45) really needs to be sat down to appreciate its many rich layers. It describes the sudden death of a friend Jesus loved and his sharing in the grief of his two sisters, the active Martha and the contemplative Mary. 

The story shows Jesus both at his most powerful and his most humanly vulnerable. He was gripped viscerally by the loss, deeper than words. We are told he gave a sigh that came straight from his heart. What can we say in the face of the disappearance of someone we love? We don’t know if they have evaporated into nothing or plunged into some deep level of reality that we are still too gross and unenlightened to penetrate. The feeling of being left behind evokes endless layers of pre-conscious memory. The wordless sigh expresses a pain of absence from which tears come. And we are told, in the shortest full verse in all the four gospels, that ‘Jesus wept.’

Some people include these potent two words in the repertoire of minor blasphemies that colour their speech when driving or mistakenly deleting an email. It might understandably be offensive to the pious, but it could also be seen as an invocation, however unconscious, of the empathy that Jesus has with suffering humanity. The tears of Jesus for Lazarus, we feel, arose not only from the personal anguish he felt at the loss of someone he loved but from his immersion in the whole ocean of human pain. When we hurt, we hurt with all those who are hurting or have ever hurt through both dimensions of time and space.

When Aeneas gazes at a mural depicting war scenes and the death of friends he is moved to say ‘There are tears in things and mortal things touch the mind.’ The tears of things. Our humanity is diminished if we cannot feel and honour them whenever and however we encounter suffering. Perhaps that is why we relish bad news, to make us feel that we can still feel even in the over-stimulated and distracted state of media culture. 

This empathy or compassion form part of the deep news hidden in the ordinary, whether the breaking news feels good or bad. Tears are a wave of energy that brings healing and new life. After his descent into the silence of deep compassion Jesus ‘calls in a strong voice’: 

‘Lazarus, here! Come out!’ The dead man came out, his feet and hands bound with bands of stuff and a cloth round his face. Jesus said to them, ‘Unbind him, let him go free.’

Tears prove our attention to be real. Sustained attention heals; regenerates what is dead; warms what is cold. And it puts colour back into what has turned a lifeless grey.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.