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Reflexões da Quaresma

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Segunda-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Maquiavel, o político arquetípico, disse que  “o mais difícil é mudar a ordem das coisas”. É uma idéia ocidental típica - um hábito mental do lado esquerdo do cérebro - supor que deveríamos e poderíamos mudar as coisas. É o jogo da política sem sabedoria com que, a esta altura, estamos todos desiludidos. E, no entanto, de alguma forma, consideramos que, se tivermos força de vontade, se formos inteligentes, e com um pouco de sorte, poderemos fazer qualquer coisa. Podemos controlar as coisas.

Hoje em dia, o Oriente e o Ocidente encontraram-se, cruzaram-se em várias ocasiões e, de muitas maneiras, misturaram-se, pelo menos para certas classes da sociedade. Mas alguns pressupostos e pensamentos tipicamente orientais ainda representam grandes desafios à mente ocidental. Um deles é permitir-se ser transformado em algo melhor, aceitando o caminho tomado pelas coisas, e seguindo com o fluxo, em vez de mudar o curso do rio com explosivos e engenharia pesada. Ficar quieto em vez de interferir impulsivamente. Sendo, mais do que fazendo.

Qualquer das abordagens tem um preço. A tentativa ativista, centrada na vontade de mudar a ordem das coisas pode ser frustrante, e oferecer apenas vitórias efêmeras. A abordagem contemplativa exige um treinamento da mente e das emoções através de uma prática contínua da atenção. A mudança começa dentro, antes de afetar o mundo exterior. O preço disso é mais alto porque a mudança envolvida é autêntica e duradoura. Exige uma condição chamada oração pura, de “simplicidade total, cujo preço é tudo.”

Recentemente conversei com alguém que estava enfrentando esse preço. Alguém lhe havia dito que quando forças fortes surgiam durante a meditação e impediam-no de dizer o mantra, o certo seria tirar a atenção do mantra. Ou, se você está dizendo o mantra e ficar bloqueado, você poderá identificar e nomear a distração responsável antes de retornar ao mantra. Contudo, o conselho da escola de meditação que seguimos é o de simplesmente dizermos o mantra, retornando a ele, em vez de pararmos para rotular a distração.

Se você não sabe o significado de dizer o mantra (ou seja, ver o mantra como uma Quaresma feliz), esta distinção pode parecer “bizantina.” De certa forma é,  dado que a distinção é tão sutil... Mas, se você sabe o que é o mantra, você verá o ponto da diferença sutil. Você sentirá sua importância para o tipo de prática e experiência que a meditação será para você. Eu acho que também faz diferença no tipo de mudança que ela produz.

Não estou dizendo que um caminho é bom e o outro mau. Nunca devemos desconsiderar ou desrespeitar a prática de outra pessoa. Existem muitas trilhas subindo rumo ao morro da verdade. Entretanto, acho que é importante vermos que a simplicidade completa significa deslocar a atenção do poder da vontade fixa para o poder do fluxo. Parar, e retomar o trabalho da vontade para rotular e nomear não é o fim do mundo, mas uma parada do trem. Mesmo quando reduz a velocidade, o trem ainda está em movimento, e haverá tempo suficiente, quando você chegar à próxima estação (após o período de meditação), para rever o que causou a desaceleração. Mas, de novo: não gaste tanto tempo com isto, para não arriscar-se a perder o trem quando ele partir novamente.

Libertar-nos da nossa vontade centrada no ego em completa simplicidade é o primeiro, e continuamente repetido, passo da jornada. Estamos sempre partindo e, uma vez começado, por que parar?

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Five

Machiavelli, the archetypical politician, said that the ‘most difficult thing is to change the order of things’. It is a typical western idea, a left-brain habit of mind, to assume that we should and could change things. It is the game of politics without wisdom that we are all disillusioned with by now. Somehow, though, we take it for granted that if we have a strong enough will, if we are clever and have a bit of luck, we can do anything. We can control things.

East and West today have met, crossed over each other several times and in many ways blended, at least for certain classes of society. But there remain some typical Eastern assumption and mind-sets that offer great challenges to the western mind. One of these is to allow oneself to be changed, into something better, by accepting the way things are going, going with the flow rather than changing the course of the river by explosives and heavy engineering. Being still rather than impulsively interfering. Being rather than doing.

Either approach carries a price. The activist, will-centred attempt to change the order of things can be frustrating and offer only short-lived victories. The contemplative approach demands a training of the mind and emotions through a continuous practice of attention. Change begins within before it affects the external world. The price for this is higher because the change involved is authentic and enduring. It demands a condition called pure prayer, of ‘complete simplicity, costing not less than everything.’ 

I was talking with someone recently who was facing this price. Someone had told him that when strong forces arise during meditation and stop you from saying the mantra, it was alright to choose to take the attention off the mantra. Or, if you are saying it and become blocked, you stop saying it, identify and name the distraction responsible before returning to the mantra. The advice of the school of meditation we follow advises us to simply say the mantra and return to it, not to stop to label the distraction. 

If you don’t know what saying the mantra means (to see the mantra as a happy Lent), this distinction might seem like spiritual hair-splitting. In a way it is, the distinction is so fine. But, if you do know what the mantra is, you will see the point of the fine difference. You will sense its importance to the kind of practice and experience that meditation will be for you. I think it also makes a difference to the kind of change it produces.

I am not saying one way is good and the other evil. One should never diminish or disrespect another person’s practice. There are many tracks winding up the hill of truth. But I think it is important to see that complete simplicity means a shift of attention from the power of the fixed will to the power of the flow. To stop and resume the will’s work of labelling and naming is not the end of the world but it is a stopping of the train. Even when a train is slowed down it is still moving. There will be time enough, when you get to the next station (after the meditation period), to review what caused the slowdown. But again, don’t spend so much time doing this that you miss the train when it starts again.

Letting go of our ego-centric will in complete simplicity is the first, and continuously repeated, step of the journey. We are always setting out and once started , why stop?

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.