Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sexta-feira após a Quarta de Cinzas

D. Laurence Freeman

Os dias sucessivos da Quaresma – como um bom viciado vivendo-a dia a dia – são uma oportunidade de nos tornarmos mais conscientes de nossas vidas, seus funcionamentos ou disfuncionalidades e também seus grandes significados. Se isso acontecer durante esses 40 (ou 46) dias será mais como por acidente do que por força de vontade. Entretanto nós precisamos nos preparar para o acidente e para sermos surpreendidos.

Clareza ou obscuridade, entretanto, nunca estão longe uma da outra.  Nós nunca estamos conscientes de todas as coisas, exceto talvez algumas vezes num sonho profundo onde todas as coisas podem aparecer como um flash atemporal da eternidade-como-um-todo e belamente conectada com uma ordem cósmica que nos preenche por um momento com admiração e um grande alívio: uma volta para casa onde nós não mais precisamos pensar ou nos preocupar ou planejar alguma coisa.

Mas na maioria das vezes, algumas coisas, ou alguns ângulos dessas mesmas coisas, são cristalinas enquanto outras são ao mesmo tempo tão turvas quanto o lago de Bonnevaux depois de uma tempestade. Naturalmente nós preferimos refugiar-nos nos poucos espaços claros das nossas perspectivas do cenário como um todo. E eles não devem ser dispensados. Mas na verdade pode ser que as coisas obscuras – o nevoeiro da vida – sejam as mais significantes. De qualquer modo, nós devemos dar conta e respeitar igualmente os dois: tanto o cristalino quanto o obscuro.

Isso nos ajuda a lidar com os problemas da obscuridade moral, quando não estamos certos do que fazer ou o que é certo ou errado. Poucas coisas e mesmo menos julgamentos sobre coisas são simplesmente preto e branco. Motivos – e o próprio caráter humano – são frequentemente misturados ou fracos e instáveis. O bem pode transformar o mal e o escuro pode subitamente nos surpreender com um brilho incrível. Viver com essa oscilação entre o bem e o mal (como nós os definimos) é por vezes um tanto confuso e irracional. Mas pelo menos neutraliza os piores vírus do preconceito, racismo, intolerância e muitas outras estupidezes que causam tanta miséria extrema.

Quaresma - e refiro-me a quaresma diária de nossas meditações matutinas e vespertinas e o momento por momento quaresmal do mantra - nos ajuda a ficar no caminho central. Nos leva firmemente através dos espaços da obscuridade e nos ajuda a desviar de cair num abismo de grande escuridão, que também é a maior superficialidade e perda de tempo e o que nós sempre devemos temer muito.

 


 

Texto original em inglês

Friday after Ash Wednesday

The successive days of Lent – like a good addict just taking it day by day – are an opportunity to become clearer about our lives, their functioning or dys-functionality and also their greater meaning. If this happens during these forty (or forty-six) days it will feel more by accident than will-power. We do however need to prepare ourselves for the accident and to be surprised.

Clarity and obscurity, however, are never far from each other. We are never clear about everything, except perhaps sometimes in a deep dream where all things may appear for a timeless flash of eternity-as-a-whole and beautifully connected in a cosmic order that fills us for a moment with wonder and huge relief:  a homecoming where we no longer need to think or worry or plan any more. 

But most of the time, some things, or some angles of the same thing, are crystal clear while others are simultaneously as murky as the lake of Bonnevaux after heavy rain. Naturally we prefer to take refuge in the few clear patches of our perspective on the whole picture. Nor are these to be disregarded. But in fact it may well be the unclear things – the fog of life – which are more significant. In any case, we must account for and equally respect both the clear and the obscure.

This helps us to deal with the problems of moral obscurity, when we are not sure what to do or what is right or wrong. Few things and even fewer judgements about things are simply black and white. Motives – and human character itself – are often mixed or weak and unstable. The good can morph into the bad and the dark can suddenly surprise us with astounding brilliance. Living with this oscillation between good and bad (as we see them) is at times a little messy and irrational. But at least it defuses the worst viruses of prejudice, racism, intolerance and many of the other stupidities that cause such extreme misery.

Lent – by this I mean the daily Lent of our morning and evening meditation and the moment by moment Lent of the mantra – help us to stay on the middle path. It leads us securely through the patches of obscurity and helps us to avoid falling into the abyss of the great darkness, which is also the greatest superficiality and waste of time and always what we should fear most.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.