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Reflexões da Quaresma

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Sábado após a Quarta de Cinzas

D. Laurence Freeman

A fome de poder, em suas múltiplas formas, doméstica, sexual ou política, é talvez o desejo mais intenso do ser humano. Se frequentemente nos sentimos insatisfeitos e inquietos, é porque essa fome conflitua muito diretamente com nossa fome de amor. O poder, como o concebemos - possessão, dominação e controle - é incompatível com o amor. O conflito entre eles explica grande parte do sofrimento interior humano. 

O amor é o verdadeiro poder. Tudo mais, em algum momento, é exposto como uma espécie de substituto. Pode estar faltando amor em nossa vida, ou nossa capacidade de amar pode estar cronicamente avariada. Quando isso acontece, buscamos alternativas: falsos deuses para adorar, em vez de pessoas para amar; cargos; posses; projetos. Sem dúvida, muitas grandes obras de arte e realizações políticas resultaram dessa transferência do amor para o poder, nascida de profundo e insatisfeito anseio humano. Estas podem ter eventualmente trazido muita alegria e muitos benefícios para outras pessoas. Mas, da mesma forma, essa disfunção na alma humana tem causado perturbações sociais imensuráveis, e muitas vezes desencadeia enormes retrocessos no curso da evolução humana.

Os tiranos solitários, em qualquer campo de atuação humana, podem ser impiedosamente cruéis no processo de adquirir e manter o poder. Ao mesmo tempo, eles revelam - especialmente quando o poder se afasta deles – a patologia da solidão, causada pela transferência de foco para um falso deus. Se testemunharmos os últimos momentos da queda de um tirano do poder - seja em uma família ou no palco da política global - e virmos seu orgulho e preconceito desmoronarem, revelando uma criança vulnerável e negligenciada; e caso sintamos apenas uma alegria cruel pela sua humilhação, estaremos nos revelando provavelmente viciados em falso poder, tanto quanto eles.

A narrativa da Quaresma, que se desenrola nas escrituras e na liturgia, consolida  a história mais intensa e transformadora já contada e transmitida de geração em geração. Durante os três dias do mistério pascal, a falsidade do desejo de poder é desnudada. A inocência, e não a tirania, é humilhada e rejeitada. Mas a vulnerabilidade extrema, como o sol irrompendo por entre nuvens escuras, revela que o único e verdadeiro poder é a divindade do amor.

A Páscoa é uma excelente oportunidade anual para recolocarmos nossas vidas no eixo das verdadeiras prioridades. Ela mostra em termos heróicos, porém simples, o significado do amor em uma escala cósmica, não egoisticamente romântica. Por causa dos coelhinhos da Páscoa e dos feriados públicos que nada comemoram, esta oportunidade é quase que nem mesmo reconhecida, muito menos aproveitada.

É por isso que treinamos na Quaresma para a maratona de três dias do Tríduo. O que estamos fazendo, ou não fazendo, durante este treinamento, com o que nos comprometemos, ou o que deixamos, tem significado para além deles mesmos.

 


 

Texto original em inglês

Saturday after Ash Wednesday

Hunger for power, in any of its multiple forms, domestic, sexual or political, is perhaps the deepest human craving. If we so often feel dissatisfied and restless it is because this hunger conflicts so directly with our hunger for love. Power as we imagine it – possession, domination and control - is irreconcilable with love. The conflict between them accounts for much of interior human suffering.

Love is the real power. Everything else is eventually exposed as a kind of substitute. Love may be missing in our life or our capacity for love may be chronically damaged. When this is this case we seek alternatives, false gods to worship in place of persons to love, positions, possessions or projects. No doubt many great works of art and political achievements have resulted from this transference from love to power, born from deep, unsatisfied human longing. These may have incidentally brought much joy and many benefits to others.  But equally, this dysfunction in the human soul has caused immeasurable social disruption and often triggers huge regressions in the path of human evolution.

The lonely tyrant, in any field of human endeavour, may be ruthlessly cruel in the process of acquiring and holding onto power. At the same time they reveal – especially as power drains away from them – the pathos of loneliness caused by the transfer of our attention to a false god. If we witness the last moments of a tyrant’s fall from power – whether in a family or on the stage of global politics – and see their pride and prejudice crumble, revealing a vulnerable and neglected child; and if we then feel only a cruel glee at their humiliation, we are showing ourselves to be likely addicted to false power as much as they were.

The narrative of Lent unfolding in scripture and liturgy builds up to the most intense and transformative story every told and passed down the generations. Over the three days of the paschal mystery the falseness of the power-lust is stripped away. Innocence not tyranny is humiliated and rejected. But extreme vulnerability, like the sun breaking through dark clouds, reveals the one and only true power to be the divinity of love,.

Easter is an amazing, annual opportunity to reset our lives on the axis of true priorities. It displays in heroic but simple terms the meaning of love on a cosmic, not an egotistically romantic, scale. Because of Easter bunnies and public holidays celebrating nothing, this opportunity is barely even recognised let alone embraced.

That is why we train in Lent for the three day marathon of the Triduum. What we are doing or not doing during this training, what we take on or what we give up, have meaning beyond themselves.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.