Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

É difícil escrever acerca da espiritualidade da Quaresma com o grito de Raquel que preenche o espaço público que ocupamos. 
Em Ramá se ouve uma voz, lamentação, choro amargo; Raquel chora seus filhos, ela não quer ser consolada por seus filhos, porque já não existem. (Jr 31, 15)

As famílias de Parkland na Flórida, a nação de alma adoentada a que pertence e, os membros da família humana de qualquer lugar que tomaram conhecimento estão dolorosamente atingidos pela tragédia do tiroteio na escola de ensino médio. A patética imagem do agressor doentio que finalmente obteve a atenção que tanto ansiava, ainda que não tenha sido do tipo almejado, evoca o senso de desamparo desesperançado que logo iremos contemplar na Semana Santa. Nicolas Cruz, de dezenove anos, não é uma figura de Cristo mas seria um cristão estranho quem não pudesse ver Cristo nele. Nesse episódio, ao início da Quaresma, a Cruz chegou-nos adiantada, para chamar nossa atenção para fora de nós mesmos, por algum tempo. Ele nos confronta com o mistério das espessas trevas pelas quais qualquer jornada para a luz precisa passar e com elas lutar.

Confrontados com o desamparo de outras pessoas não sabemos o que dizer ou fazer. Gostaríamos de ajudar, consolar, explicar, mas estamos desarmados de todos esses meios. O mais difícil, ainda que o mais valoroso, é não fazer nada. Porém, costumeiramente fugimos do desamparo com trivialidades e conversa de prece. Logo, desconfortáveis com o tom de nossa própria voz, pedimos para sair e seguir adiante.

A amarga tristeza busca a fuga da prisão de sua angústia e solidão. Em nossa opulenta cultura de falsa liberdade e limitadas oportunidades, aqueles que sofrem mais intensamente recebem cada vez menos cuidados. Sem atenção suficiente, e bálsamo para a alma adoentada, pouco se pode evitar que a solidão se transforme em loucura. Limitadas são nossas opções humanas em face da solidão. Podemos lidar com a dor voltando-a para dentro e destruindo nossa própria psique. Podemos tentar fugir dela inflingindo-a aos outros. Ou, com o amor de outro que se recusa a desistir de nós, podemos, com dificuldade, transformar a tristeza raivosa de nossa alma em paz e compaixão.

As preces dos políticos em uma quadra de tragédia coletiva podem proporcionar alívio formal, temporário: mesmo a personalidade mais disfuncional e superficial pode ocupar o papel paternal para um povo em crise. No entanto, a prece isenta de ação dirigida às causas do sofrimento é prece falsa, um acobertamento e uma deliberada distração. É perversa, pois de fato participa das trevas e da fraude corrosiva  que causam a dor, e àquelas pertence.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week One

It is hard to write about the spirituality of Lent with the cry of Rachel filling the public space we occupy.
A voice is heard in Ramah, lamentation and bitter weeping. Rachel is weeping for her children; she refuses to be comforted for her children, because they are no more. (Jer 31:15)

The families in Parkland Florida, the soul-sick nation it belongs to and the members of human family anywhere who know about it are painfully penetrated by the tragedy of the high school shooting. The image of the pathetic, broken perpetrator, finally getting the attention he craved but not the kind he was looking for, evokes the sense of hopeless helplessness that we will soon contemplate in Holy Week. Nineteen-year-old Nikolas Cruz is not a Christ-figure but it would be a strange Christian who could not see Christ in him. In this incident, at the beginning of Lent, the Cross has come to us early, wrenching our attention away from ourselves for a while. It confronts us with the mystery of the thick darkness that any journey into the light must pass through and struggle with.

In the face of other people’s helplessness we don’t know what to say or do. We would like to help, console, explain but we are disarmed of all these means. Hardest of all – and yet most valuable – is to do nothing. But we usually escape helplessness through platitudes and talk of prayer. Uncomfortable soon with the tone of our own voice, we beg to leave and move on.

Bitter sadness seeks to escape from the prison of its anguish and loneliness. Increasingly in our affluent culture of fake freedom and limited opportunity, those suffering most intensely are offered least care. Without sufficient attention, and balm for the damaged soul, little can prevent loneliness from mutating into madness. Our human options in the face of loneliness are limited. We can deal with the pain by turning it inwards and destroying our own psyche. We can try to escape it by inflicting it on others. Or, with the love of another refusing to give up on us, we can, with difficulty, transform the angry sadness of our soul into peace and compassion.

The prayers of politicians at a time of collective tragedy may give some temporary, formal relief: even the most dysfunctional and shallow of personalities may occupy a kind of parental role for the people in a crisis. Yet, prayer without action on the causes of the suffering is fake prayer, a cover-up and deliberate distraction. It is perverse because it actually participates in and belongs to the darkness and corrosive deception that causes the pain.

Our Lent should continue in solidarity with the weeping Rachels of Parkland and all those other Rachels to come. It will not be empty if we work honestly to cast out the false voices and self-deceptions from our own inner room.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.