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Reflexões da Quaresma

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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Um cirurgião cardíaco de um grupo que eu estava introduzindo à meditação me pediu para parar de usar a palavra “coração” em minhas palestras. Ele disse que isso o distraía com pensamentos sobre seu trabalho e acrescentou que, em todas as cirurgias que fez, nunca viu algo remotamente espiritual em nenhum coração. Pelo menos, isso o fez pensar.

Muitas pessoas, ao ouvir a palavra coração usada não como referência anatômica, associam-na a sentimentos e emoções. Isso está mais próximo do significado da palavra do que a resposta materialista do médico. As emoções são realmente “sentidas” na região do peito: dizemos que estamos com o coração partido ou o coração na mão(*) por razões que podem estar conectadas a um link entre o centro emocional de nossos cérebro e esta região do corpo. Isso pode explicar algo de interessante, mas não muito. Interessante é que se diz que o amor é “sentido” no corpo inteiro.

Podemos reduzir os sentimentos e emoções a nosso sistema nervoso central. O coração é um símbolo espiritual do centro individual da consciência desperta e do âmago da identidade. Todas as dimensões – física, mental, e as mais sutis – do ser humano convergem e se resolvem neste simples e permanente centro de integridade.

Quando meditamos, precisamos estar preparados para diferentes ondas e tipos de sentimentos em momentos diferentes. Primeiro, podemos sentir uma inquietação básica e coceiras nos pés. Parece simplesmente impossível permanecer sentado imóvel sem fazer nada e nesta postura pouco familiar por vinte ou trinta minutos. Muitos lutam com apenas vinte segundos. Depois que nossa capacidade se ampliou, podemos sentir uma onda de raiva contra os outros ou nós mesmos, ou vergonha, ou desejo ou ambição ou uma tristeza profunda e sensação de perda. A sensação de vazio e de ser tragado para a ausência total de sentido podem ser o pior que teremos de enfrentar.

A meditação não reprime, nega ou ignora estes sentimentos. Eles vêm de alguma parte e é melhor que saiam. Se conseguirmos nos manter sentados através deles, nos tornamos mais calmos, livres e gentis conosco. Neste sentido, a meditação purifica nossas emoções ao permitir que estas memórias assimiladas e associações se resolvam e libertem sua energia para um uso melhor. Não é, porém, o coração que produz estes sentimentos. Na verdade, ele nos proporciona o centro imóvel, o âmago estável da consciência desperta, e nos aproxima da profundidade do ser, onde a consciência pura, a calma e a clareza revelam um sentimento além do sentimento e uma emoção além da emoção, que denominamos o amor de Deus.

A compaixão e o amor são mais do que sentimentos: podem estar associados a qualquer sentimento ou circunstância e característica pessoal. Fluem sem esforço de nossa natureza verdadeira, se não estiverem bloqueados por forças negativas dentro de nós. Não podemos controlá-los nem produzi-los, porque nós somos compaixão e amor.

O mantra – e nossa pequena prática diária de disciplina pessoal e generosidade para com os outros – são nossa prancha de surf para o porto da paz.

(*) “heart drops” no original, expressão que significa “morto de medo” em português

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week One

A cardiac surgeon in a group I was once introducing to meditation asked me to stop using the word ‘heart’ in my talks. He said it was distracting him with thoughts of his work and also, he added, in all his operations he had never seen anything in the heart that looked remotely spiritual.

At least it made him think. Many people when they hear the word heart used non-anatomically associate it with feelings and emotions. This is closer to the meaning of the word than the doctor’s materialist response. Emotions are indeed ‘felt’ in the chest area: we say we feel heart-broken or that our ‘heart drops' for reasons that might be connected to a link between the emotion centre of our brain and this region of our body. That may explain something of interest but not much. Love, interestingly, is said to be ‘felt’ throughout our body. 

We can’t reduce feelings or emotions to the central nervous system. The heart is a spiritual symbol of the personal centre of conscious awareness and core identity. All the physical, mental and most subtle dimensions of human being converge and resolve in this centre of simple, abiding wholeness. We are our heart.

When we meditate we need to be prepared for different waves and kinds of feelings at different times. At first we may feel basic restlessness and itchy feet. It just seems impossible to sit still and do nothing in this unfamiliar posture for twenty or thirty minutes. Many struggle with even twenty seconds. Later, after our capacity has increased, we may feel a wave of anger directed at others or ourselves, or shame, or lust or greed, or a profound sadness and sense of loss. Feelings of nothingness and being dragged down into meaninglessness may be the worst we have to endure.

Meditation does not repress, deny or ignore these feelings. It is good they arise and are consciously felt. They come from somewhere and it is better they are outed. If we can sit through them we are calmer, freer and gentler with ourselves. In this sense meditation purifies our emotions by allowing these under-assimilated memories and associations to resolve and release their energy for better use.  It is not the heart that produces these feelings, however. Rather, it offers us the still centre, the stable core of conscious awareness and attention that allows us to ride the waves, however stormy, and approach closer to the depth of being where pure consciousness, calm and clarity reveal a feeling beyond feeling and an emotion beyond emotion that we call the love of God. 

Compassion and love are more than feelings: they may be associated with any feeling depending on circumstances and personal character. They flow effortlessly out of our true nature if they are not blocked by negative forces within ourselves. We cannot control or manufacture them because we are them.

The mantra – and our small daily practices of personal discipline and generosity to others – is our surfboard to this harbor of peace.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.