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Reflexões da Quaresma

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Sábado da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

O Êxodo é a grande metáfora bíblica para a Quaresma: os quarenta anos de perambulação da tribo hebreia no deserto, antes de chegarem à Terra Prometida, elucida os quarenta dias que passamos nos preparando para os “mistérios pascais” - e eles são mistérios - da Páscoa.

O octagenário Moisés foi encarregado da tarefa de persuadir o faraó a “libertar meu povo”. Pessoalmente, ele tinha uma autoconfiança surpreendentemente baixa para um líder de libertação nacional, e era, segundo ele mesmo, um orador muito fraco; mas ele confiava e fez o que lhe foi dito pelo Senhor. Seu show de poderes mágicos - transformar um bastão em serpentes - não impressionou os egípcios, que conseguiam fazer o mesmo. Uma lição de competitividade religiosa. As dez pragas que o Senhor desencadeou sobre o Egito variaram de transformar o Nilo em sangue a uma praga de piolhos, outra de moscas e, finalmente, a mais horrível, a morte de todo primogênito. Finalmente, o faraó compadeceu-se e os deixou ir; em seguida se arrependeu de sua decisão e tentou trazê-los de volta, mas, como consequência, sofreu a perda de seu exército no Mar Vermelho. Assim foi construído o mito fundador de Israel - uma combinação de perseguição e reação e relações ruins com todos os seus vizinhos.

Isso não é, a princípio, nem muito edificante nem muito histórico. Não há registro deste evento em fontes contemporâneas. A maioria das pessoas modernas, não acostumadas com a maneira mítica e alegórica de ler a “história”, acham essa representação de Deus perturbadora ou absurda. Não é fácil defendê-la, salvo como elemento de uma descoberta progressiva da natureza de Deus, que ocorre do começo ao fim da Bíblia. Na fé judaica, esta culmina com os profetas (eles encontraram um Deus de paz e justiça que diz “o que eu quero é misericórdia e não sacrifício”). Para o cristão, isto culmina em Jesus, o profeta que, em todos os sentidos, une Deus e a humanidade.

Enquanto nos sentirmos des-unidos de Deus, seremos vítimas de nossa própria imaginação. Os eventos ruins serão interpretados como punição por crimes - conscientemente ou inconscientemente cometidos. Os bons eventos serão vistos como recompensas e sinais de que somos mais favorecidos do que outros. Qualquer uma dessas reações é desastrosa para o nosso relacionamento com Deus (“relacionamento” também deve ser visto como uma metáfora) e nossas relações com os outros - especialmente aqueles que possuem crenças diferentes das nossas.

 

Assim, precisamos ler o Êxodo com uma mente contemplativa, sentindo nosso percurso abaixo da superfície, até o mais profundo, subcutâneo, nível de significado, e sua interação com nossa própria experiência. Então as pragas podem parecer menos como castigos cruéis de um Deus irritado e mais como ilustrações dos sofrimentos na vida que fazem parte do nosso despertar e libertação. Talvez, o segredo da história - ainda a ser compreendido na 

política do Oriente Médio - é que ambos os lados nesta história de hostilidade humana estão de fato, em relação a Deus, do mesmo lado, e que cada um tem muito a aprender. 

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week One

Exodus is the great scriptural metaphor for Lent:  the forty years of the Hebrew tribe’s wandering in the wilderness before they reached the Promised Land illuminates the forty days we spend preparing for the paschal mysteries – and they are mysteries – of Easter.

The eighty-year-old Moses was charged with the task of persuading the pharaoh to ‘let my people go’. Personally, he was, remarkably unselfconfident for a national liberation leader and by his own account a very poor speaker; but he trusted and did what he was told by the Lord. His show of magical powers – turning a rod into snakes – did not impress the Egyptians who could do the same. A lesson in religious competitiveness. The ten plagues that the Lord then brought on Egypt varied from turning the Nile into blood, to a plague of lice, another of flies and finally, most horrifically, the death of every first-born child. Finally the pharaoh relented and let them go; then he repented of his decision and tried to bring them back but as a consequence suffered the loss of his army in the Red Sea. Thus the founding myth of Israel was constructed – a combination of persecution and reaction and bad relations with all their neighbours. 

It is neither, at first, very edifying nor very historical. There is no record of this event in contemporary sources. Most modern people, unaccustomed to the mythical and allegorical way of reading ‘history’ find this representation of God either disturbing or absurd. It is not easy to defend except as part of an evolving discovery of the nature of God that takes place throughout the Bible. In Jewish faith this culminates in the prophets (they met a God of peace and justice who says “what I want is mercy not sacrifice”). For the Christian it culminates in Jesus, the prophet who in all ways unites God and humanity.

As long as we feel dis-united from God we will be victims of our own imagination. Bad events will be interpreted as punishment for crimes – consciously or unconsciously committed. Good events will be seen as rewards and signs that we are more favoured than others. Either of these responses is disastrous to our relationship with God  (‘relationship’ should also be seen as a metaphor) and our relationships with others – especially those who hold beliefs different from our own.

So we need to read Exodus with a  contemplative mind, feeling our way below the surface to the deeper, subcutaneous level of meaning and its interaction with our own experience. Then the plagues might appear less as cruel punishments of an angry God and more as illustrations of the sufferings in life that form part of our awakening and liberation. Maybe the secret of the story – yet to be realised in Middle-Eastern politics – is that both sides in this story of human hostility are in fact, in relation to God, on the same side and that each has a lot to learn.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.