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Reflexões da Quaresma

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Terça-feira da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

É possível tornar-se tão competitivo e quantitativo sobre coisas espirituais quanto sobre questões materiais. Há esnobes ascéticos, assim como existem pessoas bem sucedidas que consideram como inferiores os socialmente fracassados.

Antes de começar meu noviciado, durante um retiro prolongado com D. John em uma pequena comunidade leiga,  um jovem recém chegado dos ashrams exóticos e zendos do Oriente veio passar algumas semanas. Ele sabia tudo, tinha lido tudo e fez com que nós, da comunidade leiga, nos sentíssemos provincianos e amadores. Ele aparentava boa forma física, falava com moderação, sorria raramente, e sentava-se em uma postura com uma quietude que Buda poderia ter invejado. Como se isso não bastasse, ele era (claro!) vegetariano e absteve-se quando, em uma ocasião especial, tomamos um copo de vinho ou cerveja.

E então, uma tarde em que fui às lojas, passei por um restaurante e vi na janela o nosso nobre asceta devorando um enorme bife, tomando uma cerveja, e olhando os doces recheados de creme que estavam ao seu lado. Olhando para trás, não posso ter certeza de se foi o seu senso de superioridade ou o meu senso de inferioridade que me fez tão julgador. Muito tempo depois, quando comentei isso com D. John, ele não pareceu surpreso e obviamente compreendia melhor o jovem do que o resto de nós. À medida que minhas expectativas a meu próprio respeito ficaram mais moderadas, tornei-me menos absoluto sobre tais coisas; agora, acho que ele provavelmente era apenas um praticante genuíno, não desprovido de ego, que simplesmente precisava de um dia de folga, e a quem, bobamente,  colocamos em um pedestal.

Nossa dureza de julgamento sobre os outros está invariavelmente ligada à nossa atitude em relação a nós mesmos, a uma sensação de competitividade, a uma vergonha latente do fracasso ou de simplesmente não alcançar o alvo. Se prejudicarmos os outros, nós nos prejudicamos, sejamos ou não flagrados. Da mesma forma, se julgarmos os outros de forma condenatória (ainda que precisemos ter discernimento sobre as pessoas), causamos angústia para nós mesmos. Não julgueis, para que não sejais julgados.

Talvez, na raiz dos piores casos de perseguição política ou opressão religiosa, esteja o medo infantil de não sermos, nós mesmos, aprovados por aqueles cuja aprovação desejamos, mesmo muito depois de terem deixado o nosso mundo.

Que alívio e libertação é descobrirmos, no amplo espaço interno da meditação, que esses jogos mentais e emocionais são fantasias. São jogos que não nos dão prazer e tecem uma amarração do espírito cada vez mais apertada. À medida que esses jogos se desvanecem do nosso mundo interior, somos libertos e estamos livres para agir como filhos de Deus no mundo real.

 


 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week Two

It is possible to become as competitive and quantitative about spiritual things as about material pursuits. There are ascetical snobs just as there are successful people who regard social failures as inferior.

When I was making an extended retreat with Fr John and a small lay community, before I began my novitiate, a young guy came to stay for a few weeks fresh from the exotic ashrams and zendo of the East. He knew it all, had read everything and made us in the lay community feel rather provincial and amateurish. He looked in good physical shape, spoke sparingly, smiled rarely and sat in a posture with a stillness the Buddha might have envied. As if that was not enough he was (of course) vegetarian and abstained when on a special occasion we would have a glass of wine or beer. 

Then one afternoon, when I had gone to the shops, I passed a restaurant and saw in the window our noble ascetic devouring a thick steak with a pint of beer and already eyeing the cream pastries near him. Looking back I can’t say for sure whether it was his sense of superiority or my sense of inferiority that made me so judgemental. A long time later, when I mentioned it to Fr John, he did not look surprised and clearly understood the young man better than the rest of us did. As my own self-expectations moderated I became less absolute about such things; and I think now he was probably just a genuine practitioner, not without an ego, who simply needed a day off and whom we had foolishly put on a pedestal.

Our harshness of judgement about others is invariably linked to our attitude to ourselves, to a sense of competitiveness or to the simmering shame of failure or of just not coming up to the mark. If we harm others we harm ourselves, whether we get caught or not. Similarly, if we judge others in a condemnatory way (we still need to be discerning about people) we cause anguish to ourselves. Judge not that ye be not judged. 

Perhaps, at the root of the worst cases of political persecution or religious oppression of others, there is the infantile fear of ourselves not being approved by those whose approval we crave, even long after they have left our world.

What a relief and liberation it is, then, to discover in the spacious inner room of meditation that these mental and emotional games are fantastical. They are games that give us no delight and weave an ever-tightening bondage of spirit. As these games fade from our inner world we are set free and let out to play as children of God in the real world.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.