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Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

As pessoas que meditam podem ser as mais egocêntricas, especialmente se a limpeza das portas da percepção (vejam a leitura de ontem) fica presa à porta inicial. A percepção de nosso egotismo, apesar de ser desconfortável, é libertadora, mas apenas se ela se expande para além de si mesma. Se a contemplação se mantém fixa em sua auto-percepção, trai o objetivo da jornada, que é a percepção centrada no outro. No treinamento de crianças, chamamos isso de “prensar nos outros”, que se refere ao respeito social básico. Mas o sentido mais profundo é a percepção direta e clara dos outros, de suas necessidades e de sua bondade, que ocorre quando adquirimos sutileza suficiente para atravessar as paredes da caverna de nosso ego.

Blake falava da limpeza, da purificação das portas da percepção. Podemos pensar nisso também como um treinamento, a ascese que é a própria vida. Todo ato de percepção é uma lição e um passo para a consciência mais profunda. Assim como agradavelmente percebemos as coisas com mais clareza após o exercicío físico, criativo, da meditação, também passamos a amar o treinamento pelo tipo de trabalho que realiza em nós.

O treinamento neste tipo de percepção assume várias formas. Como todo processo universal, nunca é exatamente o mesmo para todas as pessoas. Ninguém está isento deste processo, pois é o sentido do desenvolvimento humano. Mas temos, cada um, diferentes temperamentos, experiências passadas, variando no tipo e no grau de mágoa causada e na combinação de esforços e fraquezas que definem tanto nossas limitações, quanto nosso potencial.

O treinamento nunca termina antes de nosso último suspiro e, talvez, nem nesta hora. Envolve correção constante da direção em que estamos. Os extremos nos tiram do curso – mesmo que possam nos ajudar a entender melhor para onde não estamos caminhando. Num extremo, por exemplo, está o Distúrbio de Déficit de Atenção, a atenção inconstante, volátil, curta: quando lutamos até para ouvir a pessoa que está falando conosco ou ler a página que estamos lendo. No extremo oposto, há o Distúrbio Obsessivo Compulsivo, a compulsão fixa, mecanicamente repetitiva: quando a agulha da atenção fica presa no vinil tocando repetidamente o mesmo trecho.

Qualquer extremo leva ao desencorajamento ou ao desespero. Mas podemos ter certeza de que até os erros e as neuroses têm seu lado positivo, quando os percebemos pelo que são. Esta percepção é, em si, um progresso, e devemos sentir que um raio do sol da consciência entra em nossas mentes obscurecidas, ao percebermos estas disfunções. Em linguagem bíblica, admitir sua responsabilidade na desordem que você ajudou a criar é uma coisa boa, o começo do arrependimento, que está simplesmente colocando as coisas de volta no lugar.

Purificar nossa percepção é como afiar uma faca cega ou andar num caminho estreito. Ver não basta. Também temos, sempre, que dar o próximo passo. Motivo pelo qual dizemos o mantra continuamente.

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week Four

Meditators can be the most egocentric of people, especially if the cleansing of their doors of perception (see yesterday’s reading) gets stuck at the starting gate. The perception of our egotism, however uncomfortable, is liberating, but only if it extends beyond itself. If the contemplative remains fixed in her self-perception she betrays the goal of her journey which is other-centred perception. In training children we call this ‘thinking of others’ and it is related to basic social graces. But its deeper sense is the clear, direct perception of others, their needs and their goodness, that happens when we become subtle enough to pass through the walls of the cavern of our ego.

Blake spoke of the cleansing of our doors of perception. We could also think of it as a training, the ascesis that is life itself. Every act of perception is a lesson and a step to deeper consciousness. Just as we gratefully perceive things more clearly after physical exercise, creative work or meditation, so we come to love the training for the kind of work it performs in us.

The training in this kind of perception takes many forms. Like every universal process it is never exactly the same for everyone. No one is exempt from this because it is the very meaning of human development. But we are each different in temperament and past experience, in the kinds and degrees of woundedness and in the combination of strengths and weaknesses that define both our limitations and our potential.

The training never stops until our last breath and, perhaps, not even then. It involves constant correction of the course we are on. Extremes take us off course – even though they may help us understand better where we are not going. At one extreme, for example is ADD, jumpy, short-lived, inconstant attention: when we struggle even to listen to the person who is speaking to us or to the page we are reading. At another extreme is OCD, fixated, mechanically repetitive, compulsive: when the needle of attention gets stuck on the vinyl and keeps replaying.

Any extreme eventually leads to discouragement or despair. But we can be reassured that even mistakes and neuroses have their positive side, when we perceive them for what they are. This itself is progress and we should feel a ray of the sunlight of consciousness enter our darkened minds just in this perception of our dysfunction. In biblical language, admitting your responsibility for the mess you helped create is a good thing, the beginning of repentance, which is simply putting things back in order.

Cleansing our perception is like sharpening a blunt knife or walking a narrow path. Seeing it is not enough. We have also, always, to take the next step. Which is why we say the mantra continuously.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.