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Reflexões da Quaresma

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Sábado da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Uma vez visitei um homem no hospital que havia apontado uma faca para sua esposa e filho, quando ela disse que o estava deixando. Em um estado transtornado, ele virou a faca para si mesmo. Quando o vi, ele estava mais calmo, mas em um imenso sofrimento interior e totalmente sem ideia sobre os motivos que o haviam levado ao seu infeliz e arrependido estado.

Ele me contou que ficou totalmente surpreso, estava despreparado para o que a esposa lhe dissera. Ele insistia que ao longo de todo o seu casamento estava tão apaixonado quanto no início do relacionamento. E, segundo ele, nunca tiveram qualquer tipo de desacordo, pelo contrário, sempre estiveram sintonizados e dedicados um ao outro.

A percepção pode ser uma coisa terrível, quando é falsa e quando qualquer coisa que desafia essa percepção e a visão de mundo que ela apoia é, custe o que custar, negada. Às vezes, a negação permanece como cúmplice em um grupo ou casamento por longos períodos de tempo. Quando se torna insustentável, alguma coisa - ou alguém como esta esposa do pobre homem – quebra. Então, as forças acumuladas da auto ilusão esmagam a mente e inundam todos os nossos sentimentos, como veneno. Uma das melhores descrições disto na literatura é Emma, de Jane Austen. Enquanto romance, é uma comédia: isso significa que termina feliz com todos se casando com a pessoa certa. Mas, como em muitas comédias, o lado sombrio da experiência e seus grandes sofrimentos devem ser enfrentados primeiro.

No decorrer de alguns momentos, no final da história, Emma percebe que mulher tola, arrogante e totalmente não perspicaz tem sido. “Estava perplexa com a confusão de tudo que a acometera nas últimas horas. Cada momento trazia uma nova surpresa, e cada surpresa devia ser motivo de humilhação para ela. Como compreender tudo aquilo? Como entender as decepções que ela mesma provocara para si, e viver com isso? Os enganos, a cegueira de sua própria mente e coração! ...ela ficou sentada, meditando em silêncio sem se mover por alguns minutos... suficientes para que conhecesse os segredos de seu próprio coração. Uma mente como a dela, uma vez aberta para a suspeita, fazia progressos rápidos. Ela entreviu... ela admitiu... ela soube a verdade inteira." (Capítulo 47)

É impossível não sentir compaixão por alguém quando o véu da ilusão atrás do qual eles estão se escondendo é removido. É uma surpresa violenta, e a violência é, muitas vezes, como no homem que mencionei, tornada, de um jeito ou de outro, contra si mesmo. Os amigos nunca são mais essenciais do que nesses tempos de vergonha e compreensão a respeito das percepções equivocadas de alguém.

A surpresa e miséria do desencanto, negativa, é a imagem espelhada do que acontece quando a realidade explode sobre nós e, com alegria, nos surpreendemos e somos preenchidos de prazer. Isso também pode ser doloroso, mas, de certa forma, de crescimento, como ao perceber que a vida foi virada de cabeça para baixo e de dentro para fora pelo amor.

A areia em uma ampulheta parece (outro erro de percepção) acabar mais rapidamente no final da hora. Nossos quarenta dias estão se esgotando. Mas tudo o que nos desiludiu nos prepara para a Páscoa e a maior surpresa de todas.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Four

I once visited a man in hospital who had taken a knife against his wife and child when she told him she was leaving him. In a deranged state he then turned the knife on himself. When I saw him he was calmer but in immense inner suffering and totally without perception about the reasons that had led him to his sad and sorry state.

He told me that he was totally surprised and unprepared for what his wife had told him. He insisted that for all their marriage they had been as much in love as at the beginning of their relationship. And, he claimed, they had never once had any kind disagreement but always been in tune and devoted to each other.

Perception can be a terrible thing when it is false and when anything that challenges it and the world-view it supports is at all costs denied. Sometimes the denial remains complicit in a group or marriage for long stretches of time. When it becomes unsustainable something – or someone like this poor man’s wife – snaps. Then the accumulated forces of self-delusion smash the mind and flood into all our feelings like poison. One of the greatest descriptions of this in literature is in Jane Austen’s Emma. As a novel it is a comedy: that means it ends happily with everyone getting married to the right person. But, as in many comedies, the dark side of experience and its great sufferings have to be faced first.

In the course of a few moments, at the end of the story, Emma realises what a foolish, arrogant and totally unperceptive young woman she has been. “She was bewildered amidst the confusion of all that had rushed on her within the last few hours. Every moment had brought a fresh surprise; and every surprise must be matter of humiliation to her. How to understand it all! How to understand the deceptions she had been thus practicing on herself, and living under! The blunders, the blindness of her own head and heart! .. she sat silently meditating, in a fixed attitude, for a few minutes... sufficient for making her acquainted with her own heart. A mind like hers, once opening to suspicion, made rapid progress. She touched -- she admitted -- she acknowledged the whole truth.’(Chapter 47)

It is impossible not to feel compassion for someone when the veil of illusion they have been hiding behind is removed. It is a violent surprise and the violence is often, as in the man I mentioned, turned, one way or another, against oneself. Friends are never more essential than at such times of shame and insight into one’s misperceptions.

The negative surprise and misery of dis-illusionment is the mirror image of what happens when reality bursts upon us and we surprised by joy and filled with delight. This too can be painful but in a way of growth, like realizing your life has been turned upside down and inside out by love.

The sand in an hourglass appears (another misperception) to run out more quickly at the end of the hour. Our forty days are running out. But whatever we have been disillusioned about prepares us for Easter and the biggest surprise of all.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.