Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quinta-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Nós desejamos drama, qualquer coisa para animar a monotonia do mundo. Mas este desejo contradiz a necessidade de segurança e as vantagens da rotina que, geralmente, ganha o dia. Somos atraídos pelo risco, mas fazemos de tudo para administrá-lo. Queremos crescimento e progresso, mas pechinchamos seu preço. Beiras de abismos são lugares dramáticos, que apuram nossos sentidos e nos deixam zonzos: mas há sempre razões persuasivas para não pular.

Como lidar com esta contradição e chegar ao paradoxo? A indústria do entretenimento oferece uma solução rápida, embora não muito satisfatória. Hollywood e Bollywood nos servem um bufê de dramas sobre crimes, filmes de guerra, romances passionais e séries à beira do abismo. Num bufê eficiente, os pratos servidos são reabastecidos constantemente e nosso apetite, re-estimulado pela comida fresca. De uma maneira parecida, nosso consumo de estimulantes substituídos por notícias sensacionalistas, anúncios de catástrofes climáticas, TV e cinema é alimentado tão continuamente que não percebemos que estamos ficando viciados. (“Não tenho tempo de meditar, mas foi um dia duro e mereci dois episódios de…”).

A vida é dramática porque somos únicos e, portanto, nenhum planejamento do futuro é capaz de nos preparar realmente para o que vai ocorrer em seguida. Previsões funcionam bem para o clima, não tão bem para a economia e de maneira nenhuma sobre quando iremos nos apaixonar ou quando o amor acabará. Não podemos prever quando a dimensão contemplativa da alma desperta e, consequentemente, desestrutura todo o padrão de nossas prioridades e hábitos.
Esta é a real beira do abismo da jornada humana, mas em geral é uma transformação dramática mais lenta do que esperamos durante um filme de ação ou mesmo um romance absorvente.

Outro dia eu estava observando uma criança representando os dramas intensos de sua imaginação num mundo próprio. Ele estava abstraído de todas as pessoas a seu redor. Fiquei pensando quais programas ou desenhos animados estavam alimentando seu rico e turbulento mundo interior. Tais fantasias fazem parte de nosso desenvolvimento. Na Idade Média, ele teria se imaginado um cavaleiro num jogo de combate ou um herói aniquilando dragões. Quando você vê um jovem adulto andando na Islington High Street vestido como o personagem de casaco preto longo do Matrix, e andando como ele, você se pergunta até que ponto a fantasia alimenta a imaginação e até onde canibaliza as forças criativas da mente.

Sem perceber, dramatizamos a nós mesmos, vivendo papéis auto-gerados de famosos, heróis, vítimas, gênios não reconhecido ou sábios negligenciados. Nós nos designamos papéis e, assim, deixamos de nos surpreender diante da maravilha de nosso próprio ser e de nossa liberdade de espírito.

A meditação quebra as armaduras da fantasia que nos enganam e retêm. Então sentimos que corremos risco. O risco da beira do abismo da realidade, de atravessar o portal. A própria natureza não dramática da meditação é o que abre para nós a real maravilha e o assombro da maneira como as coisas são de verdade.

 


 

 

Texto original em inglês

Thursday Lent week Five

We crave drama, anything to animate the monotony of the mundane. But this craving contradicts the need for security and the advantages of routine that usually win the day. We are attracted to risk but we do everything we can to manage it. We want growth and progress but haggle over the price. Cliff-edges are dramatic places that sharpen our senses and give us a buzz: but there are always persuasive reasons for not jumping.

How to handle this contradiction and get to the paradox? Entertainment offers a quick solution though not a very satisfying one. Hollywood and Bollywood feed us a buffet of crime drama, war movies, passionate romances and cliff-edge series. In a well-run buffet the serving dishes are constantly replenished and our appetite re-kindled by fresh food. In a similar way, our consumption of vicarious thrills through sensational news, disaster weather warnings, TV and movies is fed so continuously that we don’t know we are becoming addicted. (‘I don’t have time to meditate but it’s been a hard day and I have earned a couple of episodes of…’).

Life is dramatic because we are unique and so no modelling of the future can really prepare us for what is going to happen next. Prediction works well for weather, less well for economics and hardly at all for when we fall in love or when love seems to die. We cannot predict when the contemplative dimension of the soul awakens and eventually disturbs the entire pattern of our priorities and habits.

This is the real cliff-edge of the human journey but it is usually a slower dramatic transformation than we have come to expect in the course of an action movie or even a gripping novel.

The other day I was watching a child acting out the intense dramas of his imagination in a world of his own. He was oblivious to everyone around him. I wondered what programs or cartoons were animating his rich and turbulent inner world. Such fantasies are part of our development. In the middle ages he would have fancied himself as a knight in a jousting match or as a hero slaying dragons. When you see a young adult walking down Islington High Street dressed like the long-coated character in The Matrix, and walking like him, you wonder where fantasy feeds the imagination and when it cannibalizes the creative forces of the mind.

Without knowing it we dramatise ourselves, occupying self-generated roles of succeeders, heroes, victims, unrecognized geniuses or neglected sages. We typecast ourselves and thereby cease to be surprised by the wonder of our own being and our liberty of spirit.

Meditation smashes the shells of fantasy that entrap us. Then we feel at risk; and we are. We risk the cliff-edge of reality, the passing through the portal. The very non-dramatic nature of meditation is what opens us to real wonder and amazement at the way things truly are.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.