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Reflexões da Quaresma

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Terça-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

A Última Ceia tece um alto nível de consciência em torno das polaridades de amizade e traição. Recusa-se a ver uma sem a outra. Recusa-se a estabelecer uma inimizade eterna entre elas - como fazemos quando, feridos ou rejeitados, dizemos que nunca mais queremos tratar com a pessoa que nos causou esse sofrimento.

Nesse estado de espírito aberto e vulnerável, Jesus atravessa o vale Kedron até Getsêmani, uma pequena propriedade onde costumava rezar. À luz da lua da Páscoa deve ele ter visto os monumentos funerários já ali presentes. Desde então, muçulmanos, cristãos e judeus adicionaram suas sepulturas a esse lugar de memórias antigas. Uma vez, ao meditar no Getsêmani com outros peregrinos, fiquei de frente para uma oliveira de 2.500 anos, que os olhos de Jesus teriam visto. Notei também algumas pequenas flores vermelhas que eu havia visto antes nas encostas da Galiléia, onde foi pregado o Sermão da Montanha. Fiquei pensando se, vendo esses “lírios do campo” em sua última noite, Jesus lembrou-se de sua casa, e de dias mais pacíficos - dias em que ele ensinou, antes de ser chamado a viver, a ser seu ensinamento com cada célula e fibra de seu ser.

Nesse jardim, no silêncio da noite, ele levou alguns poucos companheiros para orar. Eles adormeceram. Em sua solidão, ele foi dominado pela onda de tristeza e medo da morte que espreitam dentro de cada um de nós. Tudo nele rejeitou seu destino; mas algo mais apareceu nesse momento de pânico: um sentimento de conexão profunda e propósito último. Com isso, passou ele do pânico para a paz e aceitação. “Não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres”.

“Em sua vontade está a nossa paz”, disse Dante. Mas a palavra “vontade”, que implica alguma disputa entre vontades ou choque de egos, pode induzir ao erro. “Ponto de vista” ou “modo de ver” transmite melhor o significado. Não simplesmente nos rendemos à vontade divina – pois a rendição geralmente carrega certo ressentimento. Não há violência nossa, ou contra nós, na união que acontece entre o nosso modo de ver e a visão de Deus.

Nessa união de visão, a ilusão de nosso “eu” como indivíduo isolado é finalmente transcendida. Ela é substituída pelo auto-reconhecimento de uma solidão única. Bem centrado e conectado nesta solidão, Jesus recebe o beijo de seu traidor, e a guarda armada que vem prendê-lo sob o manto da escuridão. Ele nunca esteve tão só e, ao mesmo tempo, também jamais esteve tão ligado tanto aos amigos quanto aos inimigos. Foi amarrado, e levado para um simulacro de julgamento, não como uma vítima, mas como um símbolo universal de liberdade.

Detalhe singular na história contada por Marcos intrigou os leitores desde o início. Um jovem seguidor, vestido apenas com um pano de linho, também foi preso, mas escapou e fugiu nu. Talvez, como diz a tradição, fosse ele o próprio Marcos. Como a figura é tanto anônima quanto autobiográfica, muitos leitores identificam-se com esse muito vulnerável e, naquela hora, um tanto absurdo discípulo do Mestre.

 


 

 

Texto original em inglês

Tuesday Holy Week

The Last Supper weaves a high level of consciousness around the polarities of friendship and betrayal. It refuses to see one without the other. It refuses to make an eternal enmity between them – as we do when, hurt or rejected, we say we will never communicate again with the person who caused us this suffering.

In this open and vulnerable state of mind Jesus walks across the Kedron Valley to Gethsemane, a small estate where he was used to pray. In the light of the Passover moon he would have seen the funerary monuments already built there. Muslims, Christians and Jews have since added their graves to this place of ancient memories. Once when I meditated in Gethsemane with fellow-pilgrims, I faced an olive tree reputedly 2500 years old which the eyes of Jesus would have seen. I also noticed some small red flowers I had seen earlier on the slopes of Galilee where the Sermon on the Mount was given. I wondered whether seeing these ‘lilies of the field’ on his last night, Jesus remembered his home and more peaceful days – days when he taught, before he was called to live, to be, his teaching with every cell and fibre of his being.

In this garden, in the night’s silence, he took a few close companions to pray. They fell asleep. In his solitude, he was overwhelmed by sorrow and the fear of death reared up from where it hides in each of us. Everything in him rejected his destiny; but something else appeared in this moment of panic. This was a sense of deep connection and ultimate purpose. With this he moved from panic to peace and acceptance. ‘Not my will but as you will it to be.’

‘In his will is our peace’, Dante said. But the word ‘will’, implying some contest of wills or clash of egos, may mislead. ‘Point of view’ or ‘way of seeing’ conveys the meaning better. We do not merely surrender our will to the divine will – surrender usually preserves a pocket of resentment. There is no violence done to us or by us in the union that happens between our way of seeing and the vision of God.

In this union of vision the illusion of our self as a separate individual is finally transcended. It is replaced by the self-recognition of a unique solitude. Centred, grounded in this solitude Jesus meets his betrayer’s kiss and the armed guard that comes to arrest him under cover of darkness. He is never more alone and never more equally connected to both friends and enemies. He is bound and led away to a mock trial, not as a victim but a universal symbol of freedom.

A singular detail in the story as told by Mark has intrigued readers since the beginning. A young male follower wearing nothing but a linen cloth was also arrested but escaped and ran away naked. Perhaps as tradition says, it is Mark himself. Because the figure is both anonymous and autobiographical, many readers find themselves identifying with this very vulnerable and for the moment rather absurd disciple of the Master.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.