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Primeiro Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quaresma 2019 semana 1 deserto

Lc 4, 1-13

Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias.

O Jordão não é o Mississipi, muito menos o Nilo. Não é muito maior do que o Rio Beaune que atravessa Bonnevaux. Seja ele grande ou pequeno, jamais entramos no mesmo rio duas vezes. Assim como acontece com nossa identidade ao longo das décadas, ele flui sempre adiante, ainda assim, sempre o reconhecemos. Recentemente, num fresco início de manhã, ao renovarmos nossos batismos no Jordão, sentimos um momento de muita emoção. A dimensão de tempo que nos separava do batismo de Jesus, tornou-se menos importante do que a dimensão espiritual, que os céticos poderiam desvalorizar como sendo mera imaginação. Ela nos abriu para uma presença que atravessava todas as quatro dimensões, e ia além do tempo e do espaço. No entanto, aquele espaço em particular, o Jordão, era significativo. E, o tempo é sempre precioso: nós o desperdiçamos sempre que não permitimos a sua intersecção com o atemporal.

Depois de seu batismo, Jesus estava cheio do Espírito: sua capacidade espiritual se expandira. Isso impulsionou-o, não para o shopping ou de volta a sua oficina de carpintaria, mas em direção ao deserto da Judéia onde permaneceu por quarenta dias (na Bíblia, quarenta simboliza a dimensão de um.período que separa duas eras. Captamos algo disso ao dizermos que estamos "em transição").

O termo grego para esse deserto onde ele permaneceu por esse tempo, trata-se de nossa quaresma, é "eremos". Dá origem ao termo eremita, a vida solitária. Isso é mais relevante para todos nós do que muitos podem pensar, por mais ocupados que possamos estar com a família, os amigos, o divertimento e o trabalho. Estamos mais solitários do que nos importamos em admitir. Porém, se o ignoramos, ou o negamos, nos contraímos, em vez de nos expandirmos, evitamos nosso eu verdadeiro e inteiro, em vez de ir ao seu encontro. A meditação é uma maneira de reconhecer e aceitar nossa solitude, que respeita o tempo, e que por isso nos ajuda a entender o significado interior da Quaresma. Como parte de cada dia, ela nos envia de volta a nossas vidas, ao trabalho e aos relacionamentos, esclarecidos, purificados, recarregados e energizados, tal como fez Jesus. Mas, também nos desperta para a dimensão interior de "eremos".

Eremos pode ser traduzido em termos pouco atraentes: deserto, região selvagem, região solitária, desabitada, desolada e desprovida. Não obstante, poderíamos nos perguntar, por que somos atraídos a isso ao sermos preenchidos pelo Espírito, ou por que precisamos ser? O que há nesse tipo de espaço, eremos, seja ele físico ou mental, que nos promete algo que outros locais ou atividades não prometem? Recentemente, precisei passar três horas em um shopping para que meu celular fosse consertado. Depois de vinte minutos de hiper-estimulação, senti que “deserto” e “local solitário” ali seriam uma boa descrição. Porém, trata-se de um tipo diferente de deserto daquele a que Jesus “foi conduzido”. A Quaresma evidencia essa diferença.

 No deserto ele foi tentado pelas forças do ego, essas com as quais passamos no mínimo quarenta anos em luta: desejo, poder, orgulho. O tempo que passamos em nosso eremos não é fácil, assim como a meditação não é fácil. Shoppings são fáceis. Se a meditação lhe parece fácil, talvez você esteja apenas fazendo compras, ou olhando as ofertas, e não meditando. Não é fácil, mas é simples e empoderadora. Cada período de meditação, no qual procuramos ser simples e escolhemos nos libertar do ego, dura “quarenta dias”.

Para finalizar, “depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Para defender o coração, até a próxima ocasião, o meditante entende porque precisamos de eremos, todos os dias.

 


 

Texto original em inglês

First Sunday of Lent: Luke 4:1-13

Filled with the Holy Spirit, Jesus left the Jordan and was led by the Holy Spirit through the wilderness, being tempted there by the devil for forty days.

The Jordan is not the Mississippi or even the Nile. It isn’t much bigger than the little River Beaune that flows through Bonnevaux. Great or small, we never go down to the same river twice. Like our own identity over the decades, it flows ever onwards and yet we always recognise it. When recently, early one fresh morning, we renewed our baptisms in the Jordan, it was a very moving moment. The dimension of time separating us from the baptism of Jesus became less important than the spiritual dimension which the skeptical might dismiss merely as imagination. It opened us to a presence that stretched through all four dimensions and went beyond space and time. That particular space, the Jordan, however, was meaningful. And time is always precious: we squander it whenever we don’t let it intersect with the timeless. 

After his baptism Jesus was ‘filled with the spirit’: his spiritual capacity had expanded. It propelled him not to the shopping mall or back to his carpenter’s workshop but into the Judean wilderness for forty days. (Forty is a Biblical shorthand for a period of time that separates two epochs. We catch something of it in the way we say we are ‘in transition’.) The Greek word for wilderness where he spent this time – it is our Lent - is eremos. It gives us the word for hermit, the solitary life. This is more relevant to all of us than many think, however busy with family, friends, fun and work we may be. We are more solitary than we care to admit. But if we ignore or deny it, we contract rather than expand, we avoid rather than meet our whole and true selves. Meditation is a time-respecting way of accepting and recognising our solitude, which is why it helps us understand the inner meaning of Lent. As  a part of each day, it sends us back to our life, work and relationships clarified, purified, recharged and energised – as it did Jesus. But it also awakens us to the eremos dimension within.

Eremos can be translated in unattractive words: wilderness, desert, lonely region, uninhabited, desolate, bereft. Nonetheless, we might ask ourselves why are we drawn to it when we are filled with the spirit, or need to be? What is there in this kind of space – physical or mental eremos – that promises us something that other locations and activities  do not. I had to spend three hours in a mall recently getting my phone repaired. After twenty minutes of over-stimulation I felt ‘wilderness’ or ‘lonely place’ described it well.  But this is a different kind of desert from the one Jesus ‘was led’ into. Lent highlights this difference.

In the desert he was tempted by the forces of the ego that most of us spend at least forty years wrestling with: desire, power, pride. The time we spend in our eremos is not easy, just as meditation is not easy. Malls are easy. If meditation seems easy perhaps you are only shopping or browsing not meditating. Not easy but simple and empowering. Each meditation period, in which we try to be simple and choose to be free from the ego, lasts ‘forty days’.

Finally, having ‘exhausted all these ways of tempting him the devil left him, to return at the appointed time’. To guard the heart, until the next time, the meditator understands why we need eremos every day.