Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

 

Mateus 25, 31-46

Pois tive fome e me destes de comer. Fui estrangeiro e me acolhestes [...] preso, e me visitastes.

Depois de sua experiência no deserto, estando não apenas “cheio” do Espírito, mas transbordando dele, Jesus partiu para fazer seu trabalho. Felizes somos nós se encontramos nossa tarefa na vida e se percebemos que nosso verdadeiro trabalho não é aquele pelo qual somos pagos ou elogiados.

Os Upanishades mostram como reconhecer nosso verdadeiro trabalho, dizendo que quem encontrou “a obra do silêncio e sabe que silêncio é trabalho” é feliz. Esse tipo de trabalho produz todos os frutos duradouros da nossa vida e é demorado. Também penetra lentamente em toda a dimensão do tempo que habitamos, ajudando o ego a desapegar. Então, produz naturalmente o fruto da sabedoria nas ações inconscientemente boas descritas na parábola de hoje. A bondade não tem nenhum vestígio do ego.

O primeiro instrumento conhecido para medir o tempo é um relógio de sol egípcio de 1.500 a.C.. Os relógios mecânicos surgiram no século XIII. Hoje em dia medimos o tempo com precisão subatômica, mas quanto mais precisamente o medimos, menos tempo sentimos que temos. Desarmar essa auto-armadilha demora. “O tempo só é conquistado ao longo do tempo.”

Há um momento em que de fato nos damos conta do que se trata a meditação: quando percebemos como é absurdo reclamar do mínimo de 20 minutos duas vezes por dia, alegando que somos ocupados e impacientes demais para nos libertarmos do estresse de sermos dependentes do tempo. O processo de aprender a meditar é universal, mas cada um de nós tem um modo único de viver esse padrão. Alguns mergulham de cabeça em dois períodos diários desde o primeiro dia; outros medem lentamente o tempo de meditação em colheres de chá – cinco minutos alguns dias por semana. No fim das contas, o que importa não é o quanto fazemos ou se somos bem sucedidos, mas o que fazemos – em fatos físicos, não em ficção mental: começar a sentar e ficar quietos e fazer o trabalho do silêncio.

Sentados. No meio do caminho entre estarmos de pé e deitados. É possível meditar em qualquer postura ou atividade, mas é bastante incomum alcançar esse estado contínuo se não tivermos aprendido a nos sentar primeiro. Sentar-se imóvel num ambiente calmo permite que a mente se aquiete. No começo, o que sentimos é o oposto da quietude: ficamos ansiosos, inquietos e confusos, confrontando as fortes ondas de agitação mental e emocional. Vemos o quão distraídos estamos, mas instintivamente procuramos nos distrair da distração através de mais distração. Abandonar os pensamentos é a resposta simples para superar esta reação. Mas nós a confundimos com o objetivo de sufocar a mente e assim sentimos que fracassamos se, depois de 40 segundos, ainda estamos distraídos. Então decidimos não desperdiçar nosso tempo, fazer alguma coisa de útil e adiar a meditação por mais 40 dias.

Para não nos entregarmos à distração, precisamos de duas coisas: um incentivo no qual podemos confiar e que vem de fora de nós mesmos; e uma abertura genuína para algo novo e inimaginável. Como isso leva tempo, precisamos da virtude do que os japoneses chamam de gamon: a perseverança, a determinação de continuar em direção contrária ao vento, suportar a derrota com paciência e dignidade e, assim, transformar o fracasso em sabedoria. Quando os nipo-americanos foram presos durante a guerra, seus compatriotas carcereiros americanos interpretaram erroneamente seu gamon como passividade e falta de iniciativa. Da mesma forma, hoje podemos ver o bom trabalho da meditação como não realista, substituindo-o por “bem-estar” ou relaxamento. Mas assim perderemos o verdadeiro fruto do trabalho do silêncio: a inconsciência da genuína compaixão.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week One: Matthew 25:31-46

For I was hungry and you gave me food. I was a stranger and you made me welcome….in prison and you visited me.

After his desert experience, not just ‘filled’ but overflowing with the Spirit, Jesus set out to do his work. Happy are we if we have found our work in life and if we see that our real work is not what we get paid or praised for. The Upanishads show how to recognise our true work, saying that whoever has found the ‘work of silence and knows that silence is work’ is happy. This work produces all the lasting fruits of our life and takes time. It also slowly penetrates the whole dimension of time we inhabit, helping the ego to let go. Then, it produces in a natural way, the fruit of wisdom in the unselfconsciously good deeds described in today’s parable. Goodness has no trace of ego.

The first known instrument for measuring time is an Egyptian sundial from 1500BC. Mechanical clocks appeared in the 13th century. Today we measure time with sub-atomic precision but the more precisely we measure it the less time we feel we have. It takes time to undo this self-entrapment. ‘Only through time, time is conquered.’ There is a moment when we know we are really seeing what meditation is about: when we see how absurd it is to begrudge the minimum twenty minutes twice a day by claiming we are too busy and too impatient to unhook from the stress of being time-dependent. The process of learning to meditate is universal but each of us has a unique way of living its pattern. Some dive in with two daily periods from day one, others slowly measure out the meditation time in teaspoons – five minutes a few days a week. Ultimately what matters is not how much we do or succeed but that we do - in physical fact not mental fiction - start to sit and be still and do the work of silence.

Sitting. Half-way between standing and lying down. You can meditate in any posture or activity but you will be very unusual in achieving this continuous state if you have not first learned to sit. Sitting still in a calm environment allows the mind to settle. At first we feel the opposite of settled: anxious, restless and confused confronting the pounding waves of mental and emotional agitation. We see how distracted we are but instinctively seek distraction from distraction by more distraction. Letting go of thoughts is the simple response for overcoming this reaction. But we confuse it with the goal of blanking out the mind and so feel we have failed if, after forty seconds, we are still distracted. So we then decide instead not to waste our time, do something useful and postpone meditation for another forty days.

In order not to surrender to distractedness, we need two things: encouragement that we can trust and that comes from outside ourselves; and genuine openness to something new and unimagined. As these take time, we need the virtue of what Japanese call gamon: perseverance, the determination to carry on against the headwind, enduring defeat with patience and dignity and so transforming failure into wisdom. When Japanese-Americans were interned during the war their fellow-American gaolers misinterpreted their gamon as passivity and lack of initiative. Similarly, today we can see the good work of meditation as unrealistic, replacing it with ‘well-being’ or relaxation. But we then miss the real fruit of the work of silence: the un-selfconsciousness of genuine compassion.