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Segundo Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quaresma 2019 2a semana Mar da Galileia

Lucas 9,28-36

Enquanto orava, o aspecto de seu rosto mudou e suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura.

Há alguns anos, uma mulher jovem muito descontente costumava ir regularmente ao nosso centro de meditação em Londres. Ela olhava resolutamente para o lado sombrio da vida, habitualmente se concentrando em tudo que lhe faltava, e não no lado positivo.

Ela era hipersensível, reativa e todos tinha muito cuidado ao lidar com ela. Um dia ela nos disse - como se fosse prova de sua convicção de longa data de que o universo estava determinado a persegui-la - que havia sido diagnosticada com um câncer agressivo e terminal. Nos meses seguintes, ela continuou a vir ao Centro e a meditar conosco e membros de nossa comunidade, em particular, demonstraram grande gentileza e paciência. Sua amargura na vida aumentou, mas pelo menos ela não rejeitou totalmente a paciência e a compaixão que lhe eram destinadas. Nós a ajudamos a encontrar um lugar para terminar seus dias. Quando ela foi levada para cuidados paliativos, costumávamos visitá-la.

Um domingo depois da missa comunitária, eu levei a ela a comunhão no hospital. Ela parecia terrível e sua expressão rígida continha muita raiva. Quando eu disse que tinha trazido a comunhão, ela fez uma careta desagradável e disse: "Bem, isso não me fará tão bem assim, não é mesmo? Não, obrigada.” Mas disse que gostaria que eu sentasse com ela por um tempo. Nós conversamos um pouco enquanto ela reclamou como alguma celebridade do momento que tinha um estilo de vida notório estava se divertindo na fama e sucesso. Ela, em contraste, tinha sido "boa" a vida inteira, obedeceu aos mandamentos e acabou assim sozinha e morrendo jovem. Eu escutei. Ela então pegou um caderno, olhou para mim e perguntou se eu gostaria de ler seus poemas. Eu desonestamente disse sim e olhei o livro, mas não pude ler a caligrafia dela, então perguntei se ela poderia lê-los para mim.

Ela começou a ler um poema chamado "A canção da baleia", descrevendo os cantos que as baleias emitem umas às outras através de vastas distâncias no fundo dos oceanos. Era verdadeiro e profundamente comovente, transformando seu intenso sofrimento solitário em palavras de beleza. Ela "cantou" para além de si mesma. Ela me lançou um rápido olhar para ver como eu estava reagindo e viu que eu estava comovido. Naquele instante, ela também, como Jesus na montanha no evangelho de hoje, foi fisicamente transfigurada. Seu rosto magro e esquálido irradiava beleza e uma espécie de glória. Seus olhos brilhavam alegremente com uma visão de uma realidade além do véu corporal e de suas aflições. Foi breve, mas atemporal. Ela recebeu a comunhão depois de tudo isso. Logo sua expressão normal decaiu novamente, embora de maneira menos intensa. Ela morreu alguns dias depois.

A oração pura flui no coração humano mais fundo que palavras, pensamentos e sentimentos. Às vezes, quebra a superfície e o próprio corpo vibra e é fisicamente alterado. As práticas espirituais desta estação de Quaresma nos lembram que o corpo é um instrumento e um sacramento. Ele não toca esse tipo de música todos os dias. Mas nunca se sabe.

 


 

Texto original em inglês

Second Sunday of Lent: Luke 9: 28-36

As he prayed, the aspect of his face was changed and his clothing became brilliant as lightning.

Some years ago, a very discontented young woman used to come regularly to our meditation centre in London. She looked resolutely on the dark side of life, habitually focusing on everything she lacked rather than on the positive side. She was hyper-sensitive, reactive and everyone trod very carefully with her. One day she told us – as if it was proof of her long-held conviction that the universe was determined to get her – that she had been diagnosed with an aggressive and terminal cancer. Over the next few months she continued to come to the centre and meditate with us and some members of our community in particular showed her great kindness and patience. Her bitterness in life increased but at least she didn’t wholly reject the patience and compassion she was shown. We helped her find a place to end her days. When she was taken into hospice care we used to visit her.

One Sunday after our community mass I took her communion in hospital. She looked terrible and her pinched expression held a lot of anger. When I said I had brought communion she grimaced unpleasantly and said ‘well that won’t do me much good will it? No thanks.’ But she said she would like me to sit with her a while. We chatted a little as she complained how some celebrity of the moment who had a notorious life style was revelling in fame and success. She, by contrast, had been ‘good’ all her life, obeyed the commandments and ended up like this alone and dying young. I listened. She then took out a notebook, looked at me and asked if I would like to read her poems. I dishonestly said yes and looked in the book but couldn’t read her handwriting so I asked her if she would read them to me.

She began to read a poem called ‘whale-song’ describing the songs that whales sing to each other across vast distances deep in the oceans. It was true and deeply moving, rendering her intense lonely suffering into words of beauty. She sang herself beyond herself. She shot me a quick look to see how I was reacting and saw I was moved. In that instant she too, like Jesus on the mountain in today’s gospel, was physically transfigured. Her thin emaciated face radiated beauty and a kind of glory. Her eyes shone joyously with a vision of a reality beyond the veil of flesh and its attendant woes. It was brief but timeless. She had had her communion after all. Soon her normal expression descended again, though more thinly now. She died a few days later.

Pure prayer flows in the human heart deeper than words and thoughts and feelings. Sometimes it breaks the surface and the body itself thrills and is physically changed. This season’s spiritual practices remind us that the body is an instrument and a sacrament. It doesn’t play this music every day. But you never know.