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Segunda-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

João 4, 43-54

Ele já descia, quando os seus servos vieram-lhe ao encontro, dizendo que seu filho vivia.


O desejo é uma espada de dois gumes. Pode cortar a confusão e a dúvida e nos ajudar a nos comprometermos de todo o coração com uma direção e um tipo de ação. Ou pode se voltar contra nós e nos atacar e incapacitar. “Tenha cuidado com o que pede a Deus, pois pode ser que Ele o atenda”, diz a sabedoria dos antigos. Ter cuidado com o que desejamos é igualmente importante, pois isso determina se progredimos ou ficamos empacados no caminho da transcendência, que é a nossa verdadeira vida.

Pais ansiosos por um filho doente ou errático sentem um enorme desejo de ajudá-lo, de se sacrificar pelo filho de qualquer maneira necessária. Esse desejo é tão instintivo que dificilmente pode ser classificado como desejo da maneira como geralmente o concebemos, mas sim como uma necessidade enraizada em nossa natureza mais profunda. Comparemos isso ao desejo irresistível de um político de ser eleito, de alguém subindo em posições hierárquicas para estar em um nível superior ou a um atleta pronto para competir e vencer. Nesses casos o desejo também nos leva a um sacrifício voluntário de tempo e até de saúde para termos o desejo satisfeito. Se tal ambição é em grande parte motivada pelo ego ou pelo desejo de fazer o bem, é uma questão de autodiscernimento. Gerenciar o desejo para que ele não se torne uma obsessão que consome todos os nossos esforços ou uma força destrutiva requer um autoconhecimento corajoso.


Com todo desejo vem o apego. Isso significa que parte da nossa identidade profunda se funde com o que desejamos. Com o apego vem o sofrimento, a dor da esperança pelo sucesso ou o medo e a dor da perda ou do fracasso. Mesmo com a euforia do sucesso, nosso alívio não dura muito até que nos perguntemos quanto tempo esse sucesso durará. Portanto, somos bem aconselhados pela sabedoria das eras a desenvolver um hábito de desapego a fim de administrar o desejo. Não podemos viver sem o desejo, mas o desejo não gerenciado pode sugar a alegria e a liberdade da vida. A meditação é a maneira mais simples e natural de desenvolver esse hábito do desapego, o melhor seguro contra os perigos tanto do sucesso quanto do fracasso. Períodos como a Quaresma e práticas de autocontrole e compromisso mais profundo também nos ajudam a afrouxar o domínio do apego. Eles nos libertam um pouco da identificação que fazemos entre nós mesmos e nosso objeto de desejo. Aceitamos que ainda temos coisas a desejar, mas não investimos em excesso nelas. Por maior que seja o desejo, lembramos que não somos o que desejamos. A boa disciplina nos liberta.

Depois, há o desejo de ser iluminado, o desejo de Deus, da santidade, de não ter desejos. Isso precisa ser gerenciado com muito cuidado, pois pode produzir grandes frutos e libertação, ou pode causar muita distorções em nossa alma e nos tornar insuportavelmente chatos para outras pessoas. Quanto maior o bem que desejamos, maior o desapego necessário para administrá-lo. Então, assim como no caso do homem no evangelho de hoje, o que desejamos pode chegar quando menos esperamos, com a força transcendente de algo totalmente livre de nós mesmos.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Four : John 4: 43-54

While he was still on the journey back his servants met him with the news that his boy was alive.

Desire is a two-edged sword. It can cut through confusion and doubt and help us commit wholeheartedly to a direction and course of action. Or it can turn on us and incapacitate us. Be careful what you pray for in case you get it, is ancient wisdom. Be careful about what you desire is equally important because it decides whether we make progress or get stuck in the trajectory of transcendence which is our true life.

Parents anxious for a sick or wayward child feel an overwhelming desire to help the child, to sacrifice themselves for the child in any way necessary. This desire is so instinctive it is hardly desire as we usually think of it but a need rooted in deepest nature. Compare this with the overwhelming desire of a politician to be elected, someone climbing a hierarchy to get higher or an athlete poised to compete and win. In these cases desire will also lead to a willing sacrifice of time and even health in order to fulfil it. Whether this ambition is largely motivated by ego or a desire to do good is a matter of self-discernment. Managing the desire, so that it doesn’t become an all-consuming obsession or a destructive force, requires courageous self-knowledge.

With all desire comes attachment. This means that a deep part of our identity becomes fused with what we desire. With attachment comes suffering, the pain of hoping to succeed or the fear or pain of loss or failure. Even with the euphoria of success the relief of pain doesn’t last long before we wonder how long it will last. So we are well advised by the wisdom of the ages to develop a habit of detachment in order to manage desire. We cannot live without desire but, unmanaged, desire can suck the joy and freedom out of life. Meditation is the simplest and most natural way to develop this habit of detachment, the best insurance against the equal perils of success or failure. Times like Lent and particular practices of self-restraint and deeper commitment also help to loosen the grip of detachment. They free up some of the identification we have made between our selves and our object of desire. We still accept that we have things to desire but we don’t over-invest. However great the desire, we remember that we are not what we want. Good discipline sets us free.

Then there is the desire to be enlightened, for God, for holiness, the desire to be without desire. This needs to be managed very carefully. It can produce great fruits and liberation. Or it can cause us much distortion of soul and make us insufferable bores to others. The greater the good we desire, the greater the detachment needed to manage it. Then, as for the man in today’s gospel, what we desire can arrive when we least expect it with the transcendent force of something utterly free of us.