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Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Nossa crise de Coronavírus vai durar mais que a Quaresma. Mas acrescenta uma dimensão pessoal e urgente aos principais temas desta estação espiritual. Nós olhamos para eles depois que a Quaresma começou, mas talvez agora eles pareçam mais existenciais, menos meramente espirituais. Ou, colocando de outra maneira, estamos descobrindo que o espiritual não é tão abstrato como costumamos assumir e que a própria vida é uma jornada espiritual que reúne todos os aspectos e tipos de experiências humanas. Quando esquecemos isso, esquecemos um elemento central da nossa humanidade. Corremos o risco de nos tornar não apenas desnutridos espiritualmente, mas menos que humanos.

Fiquei chocado recentemente ao receber uma carta ao vírus de um adolescente de vinte anos. Não vou citá-lo porque pode ser perturbador para aqueles que perderam amigos para o vírus ou estão profundamente preocupados com seus entes queridos e com eles mesmos. Era uma carta de agradecimento, provocativa e inteligentemente escrita, mas, como se poderia esperar de um jovem intenso, falta ainda uma total empatia pelos que sofrem. A carta viu dolorosamente a crise como um alerta e a acusação de um estilo de vida insustentável.

Como eu disse outro dia, não é hora de culpar e apontar o dedo, mesmo para nós mesmos. Mas há um ensinamento oculto nesta crise e, se pudermos encontrá-lo, reconheceremos a oportunidade de mudança que ele oferece. O terrível sofrimento e o número de mortos no final não serão justificados, mas farão parte desse significado difícil de engolir. Para qualquer pessoa viva neste momento, qualquer que seja sua geração, esteja ou não infectada, o mundo nunca será o mesmo. A família humana será mais fraca e a recuperação será difícil. Nesses momentos, as forças sombrias da política e das finanças podem procurar tirar vantagem e nunca será mais importante ter uma massa crítica de pessoas nas quais a mente contemplativa despertou. Nem heróis nem santos, mas seres humanos que recuperaram a dimensão espiritual da realidade, tantas vezes ausente. Seres humanos ridicularizados, negligenciados, rejeitados ou banalizados em nossa cultura atual.

Quando colocamos a espiritualidade em outra categoria, ou a reduzimos materialmente a neurônios e mitos, iniciamos o processo de desumanização da humanidade. A paz é buscada pela força, a riqueza é armazenada por poucos, as estruturas políticas são seqüestradas e a religião se torna apenas outra identidade pessoal ou uma ideologia agressiva.

Mesmo que não tenha se expressado perfeitamente, o jovem que escreveu a carta entendeu bem que não estamos apenas enfrentando uma crise humana de sofrimento que exige compaixão e ação, mas também é uma oportunidade de se viver melhor. Oportunidades podem ser mais desafiadoras do que falhas. John Main uma vez me perguntou, quando eu comecei este caminho, se eu estava preparado para tudo o que traria. Eu pensei que ele quis dizer que eu iria desistir. Mas ele me corrigiu: 'Quero dizer a alegria'. Etty Hillesum escreveu, enquanto ajudava os judeus a serem presos pelos nazistas para serem enviados a Auschwitz: “Hoje sinto desespero total. Eu vou ter que lidar com isso.”

Agora estamos nos dias do equinócio da primavera*, a força mais poderosa da ressurreição na natureza. É o momento certo para lidarmos com alegria.

(*No hemisfério norte.)

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week Four

Our Coronavirus crisis will last longer than Lent. But it adds an urgent, personal dimension to the main themes of this spiritual season. We looked at these after Lent began but perhaps now, they seem more existential, less merely spiritual. Or, putting it another way, we are discovering that the spiritual is not as abstract as we often assume and that life itself is a spiritual journey that brings together every aspect and kind of human experience. When we forget this, we forget a core element of our humanity. We risk becoming not only spiritually undernourished but less than human.

I was shocked recently to receive a letter to the Virus from a twenty-year-old. I won’t quote from it because it could be upsetting to those who have lost friends to the virus or are deeply concerned for their loved ones and themselves. It was a letter of thanks, provocatively and intelligently written but, as one might expect from an intense young person, lacking as yet a full empathy for others who suffer. The letter painfully saw the crisis as a wake-up call, and the indictment of an unsustainable lifestyle.

As I said the other day, this is not a time merely for blaming and finger-pointing, even at ourselves. But there is a teaching hidden in this crisis and if we can find it, we will recognise the opportunity for change it offers. The terrible suffering and death-toll by the end will not be justified but will be part of this hard-to-swallow meaning. For anyone alive at this time, whatever their generation, whether they were infected or not, the world will never be the same. The human family will be weaker, and recovery will difficult. In such times the dark forces of politics and finance may seek to take advantage and it will never be more important to have a critical mass of people in whom the contemplative mind has awakened. Not heroes or saints but human beings who have recovered the spiritual dimension of reality, so often missing, ridiculed, neglected, rejected or trivialised in our present culture.

When we put spirituality into another category, or reduce it materialistically to neurons and myths, we begin the process of dehumanising humanity. Peace is sought by force, wealth is stockpiled by the few, political structures are hijacked, and religion becomes merely another personal identity or an aggressive ideology.

Even if it wasn’t expressed perfectly, the young person who wrote the letter understood well that we are not just facing a human crisis of suffering that requires compassion and action, but also an opportunity to live better. Opportunities can be more challenging than failures. John Main once asked me as I began this path if I was prepared for all it would bring. I thought he meant what I would be giving up. But he corrected me: ‘I mean the joy.’ Etty Hillesum wrote, as she was helping the Jews being rounded up by the Nazis for shipment to Auschwitz, “Today I feel total despair. I will have to deal with it’.

We are now in the days of the spring equinox, the most powerful force of resurrection in nature. It is the right time for us to deal with joy.