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Sábado da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Um bom amigo pode lhe dar consolo e conforto quando você se sente desesperado, mas um verdadeiro amigo nunca dá falsas esperanças. Políticos que querem se reeleger, pais que só querem ser queridos pelos filhos, empregadores que querem evitar o confronto podem decidir enganar aqueles que vêm até eles em busca de liderança distribuindo migalhas de ilusão. É como jogar alguma coisa que você não quer para um gato, que fica animado a princípio, mas depois de cheirar o que você jogou, vira o nariz para cima e olha para você com nojo.

Simone Weil nunca reduziu o sentido das palavras, então muitos acham que seus insights vêm de forma muito concentrada. Uma vez ela disse que “toda consolação é engano”. Acho que ela se referiu à falsa consolação e à falsa esperança, ambas as quais vêm do “pai da mentira” e não do fundamento do ser.

“O vírus é fake news; na Páscoa vamos voltar ao normal. Os negócios vão crescer de novo logo, logo.”
“Claro que a meditação não precisa de disciplina. Medite quando tiver vontade.”
“Foi tudo culpa deles, lógico. Vamos acusá-los.”
“Você não precisa sofrer. Viva como se não fosse morrer.”

De uma forma ou de outra, quer venha de legisladores, púlpitos ou gurus de estilo de vida, engolimos mentiras o tempo todo. Depois de um tempo, precisamos de mentiras maiores. Quando as falsas esperanças não se realizam, precisamos de outras mais absurdas para acreditar. Mas quanto mais altas são as apostas, mais forte ficam o vício e a negação da realidade. Não estou dizendo que deveríamos ser gratos ao vírus ou pelo sofrimento em geral, mas devemos reconhecer que eles podem nos ensinar a ver a realidade mais claramente e a mudar padrões de autoengano que permitem que outras pessoas iludam inescrupulosamente.

Os Padres do Deserto viam a acídia como um dos maiores bloqueios ao desenvolvimento humano. Acídia é um desânimo que leva à negatividade e ao pessimismo, a rejeição de qualquer coisa que não nos dê o que queremos. Ela nega que temos que passar por túneis antes de chegar à luz. Distorce nossa percepção da verdade e conta as mentiras que queremos ouvir porque já as ouvimos tantas vezes anteriormente. Estas têm a única virtude de serem familiares, sendo repetidas a partir dos nossos arquivos interiores talvez por décadas. A acídia não é nossa culpa.

Se as pessoas sentem isso quando estão em isolamento durante essa grande quarentena, elas não têm que se culpar por isso. É a mesma coisa com o tédio. Você não pode evitar sentir tédio. Mas podemos fazer alguma coisa com esses estados mentais infelizes. Podemos reconhecê-los e experimentar um remédio diferente do que usamos antes. Quietude em vez de atividade. Silêncio em vez de aumentar o volume, simplicidade em vez de buscar alguma coisa nova. O termo coletivo para essa abordagem alternativa da vida é contemplação. O caminho contemplativo pode parecer estreito comparado àquilo que estávamos fazendo antes. Mas uma vez experimentado, descobrimos que ele “leva à vida”.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Four

A good friend may give you consolation and a comforting word when you feel desperate, but a true friend will never give false hope. Politicians who want to get re-elected, parents who just want to be liked, employers who want to avoid confrontation may decide to deceive those who look to them for leadership by throwing them scraps of illusion. It’s like throwing something you don’t want to a cat who looks excited but after it has sniffed it turns up its nose and looks at you with disgust.

Simone Weil never minced words and so many find her insight too concentrated a form. She once said, ‘all consolation is deception’. I think she meant false consolation and false hope all of which come from the ‘father of lies’ not the ground of being.

‘The virus is fake news; we’ll be back to normal by Easter. Business will boom again very soon.’
‘Of course, meditation doesn’t need discipline. Do it when you feel like it.
‘It was all their fault, obviously. Blame them.’
‘You don’t need to suffer. Live as if you’ll never die’.

In one form or another, from legislators, pulpits or lifestyle gurus we swallow lies all the time. After a while, we need bigger lies. When false hopes aren’t realised, we need more outrageous ones to make us believe them. But as the stakes get higher the stronger becomes the addiction and the denial of reality. I’m not saying we should be grateful for the virus or for suffering in general but we should acknowledge that it can teach us to see reality more clearly and change patterns of self-deception that allow others unscrupulously to deceive us.

The Desert Fathers understood acedia as one of the major blocks to human development. It means discouragement leading to negativity and cynicism, the rejection of anything that doesn’t give us what we want. It denies that we have to pass through tunnels before coming out into the light. It distorts our perception of truth and tells lies we want to hear because we have heard them so many times before. They have only the virtue of being familiar, having been replayed from our internal archives perhaps for decades. Acedia is not our fault.

If people feel this while in isolation during the great shutdown, they don’t have to blame themselves. It’s the same with boredom. You can’t help being bored. But we can do something about these unhappy states of mind. We can recognise them and try another remedy from those we have used before. Stillness rather than activity. Silence rather than raising the volume, Simplicity rather than looking for something new. The collective terms for this alternative approach to living is contemplation. The contemplative path may look like a narrow one compared with what we were doing before. But once tried, we find it ‘leads to life’.